O que é ridículo

No canto esquerdo da foto, quase escondido, eu. Minha amiga Fátima  está um pouco à direita do centro. Hehehe.

No canto esquerdo da foto, quase escondido, eu. Minha amiga Fátima (hehe)
está um pouco à direita do centro. Mais fotos aqui.

“O que eu fiz? Céus… Paguei um grande ‘mico’ em rede nacional”. Essa foi minha primeira reação após ver o vídeo de minha participação no programa ao vivo “Encontro”, com Fátima Bernardes.

Pois bem. Sou carioca, mas moro em SP há quase uma década. A produtora da Globo, no RJ, enviou um e-mail para mim na terça, 18 de setembro, pela manhã — ela me encontrou a partir de meu blog de poemas. Sabe como é: especialmente na Internet, uma coisa realmente leva à outra. Maçã vira Newton, Nova Iorque, Guilherme Tell, Adão e Eva, etc. Essa serendipidade das redes… Ah! O programa. O tema era relacionamentos que chegam ao fim, “pé na bunda” e superação. Segundo a produtora, estavam com muita dificuldade de achar um homem disposto a abrir a guarda desse jeito. Pensei: “Ora bolas. Tenho uma boa história para contar. Vou lá!”.

Participar do programa foi fascinante em vários níveis; mas, claro, mais interessante ainda para mim é pensar nos desdobramentos sociais digitais a partir desta experiência tão típica do paradigma das mídias de massa — televisão, Globo, programa de elevada audiência.

Primeira lição: ao considerar as métricas básicas do Facebook (número de “Curtir” e de comentários), um cachorrinho maltês muito bonitinho quase superou minha ida ao programa de TV. Aliás, o nome dele é Max. E já está castrado, sinto dizer.

Segunda lição: pessoas que sumiram há muito ou de quem você nunca ouviu falar tomarão a iniciativa para achar e comunicar-se contigo por meio da Internet. Vão mesmo. Basta aparecer na TV e virar uma sub, sub, sub, subcelebridade por um fiapo de tempo, que um sopro da “aura” benjaminiana venta sobre você; é único e interessante, mas também muito estranho. Mais ainda para quem não consegue ficar apenas na superfície das coisas (Ignorância é uma benção? Por mim, nunca!). Detalhe: enquanto escrevia este texto, fui adicionado no Facebook por outra alguém que já havia sumido da minha vida — e eu, da dela — fazia um bom tempo. Devo admitir que considero esse tipo de reverberação da visibilidade via mídia de massa no contexto digital perturbador, por fascinante que seja.

Terceira lição, e a que considero mais interessante, leva de volta ao primeiro parágrafo: o vídeo de minha participação no programa. Naturalmente, por si só, já se trata de uma derivação em espaços sociais digitais de algo que começou na TV. Em outras palavras, um processo de convergência midiática: a TV converge para a Internet. Posto isso, o leitor provavelmente sabe que, uma vez nos espaços sociais digitais, não há volta. A informação estará ali (de fato ou potencialmente) para sempre. Pois sim. O título que acompanha o vídeo com minha participação é “Marcelo ganhou pé na bunda em momento difícil”. Uau! Cá entre nós… Minha reação primeira e visceral foi um quase-arrependimento de ter ido ao programa. Mas, poucos segundos (sim, segundos) depois, caí em mim e lembrei o quão libertador é (poder) revelar mais de si, esconder-se menos — e cada vez menos.

Especialmente por conta das tecnologias digitais, já vivemos um processo de valorização de identidades mais transparentes. Isso vale para empresas e instituições, como podemos ver em tantos cases corporativos — por exemplo, o caso fantástico do Spoleto com o Porta dos Fundos. Valores como humildade, simplicidade, empatia e bom humor estão em alta: saber admitir erros (fazer o “mea culpa”) e mostrar fragilidades e fraquezas com bom senso é “humanizar sua marca”. Da mesma forma, creio ser uma excelente ideia cultivar esses valores e comportamentos desde o nível individual.

Uma primeira razão, mais “interesseira” e prática — particularmente para quem trabalha em empresas — seria o fato de que, ao valorizar e exercitar esses valores desde o nível do indivíduo, você provavelmente terá mais facilidades para derivá-los a um grau institucional. Ainda no âmbito mais racional: é próprio das tecnologias digitais que as informações circulem com facilidade, velocidade e quantidade sem par na história da comunicação. Ora, isso também significa que as pessoas têm uma facilidade sem precedentes para encontrar informações sobre empresas e indivíduos; ou seja, tomar a dianteira, assumir sua identidade e “expor-se antes de ser exposto” pode ser, também, estratégico e sensato.

Outro motivo (que considero mais importante) para abraçarmos superior transparência individual desde as bolhas digitais identitárias (p. 46–50), essas nossas “versões binárias” (como um perfil no Facebook): por um mundo menos neurótico e psicopático. Tão somente porque pode ser muito agradável aproximar genuinamente — o mais possível — nosso “ser” e “parecer”. Sim, vivemos em meio a uma poluição digital de fotos de comidinhas, mensagens de autoajuda, obviedades politicamente corretas, memes e bichinhos (Cof! Quase entalei, desculpa). Ainda assim, em meio a toda a egolatria de pescadores e pescadoras de elogios e “Curtir” — o que também tem seu aspecto lúdico e é integral a nossas interações digitais —, talvez valha a pena buscar utilidade e beleza na possibilidade de sermos mais transparentes, honestos com nós mesmos; e, a partir daí, com os outros.

As barreiras e “máscaras” antiquadas, que gostavam de vender uma perfeição ilusória de vida, amores e todo o resto, estão caindo — mesmo com todo o confete e a fumaça de zeros e uns. Afinal de contas, ora bolas, o que é ridículo? Alguns falam sobre a importância de saber apertar o botão do “dane-se” (você entendeu…). Quem sabe, seja algo por aí — só que mais contextualizado. Até onde sei, todos nascem, bebem, comem, fazem suas necessidades e morrem. Ah… Somos tão poeticamente semelhantes! E acontece que estamos reconstruindo nossos laços sociais desde os primeiros tijolos, desde a base. A natureza da tecnologia digital, com todos os seus elementos de facilidade e risco, propicia e quase pede mais honestidade e transparência. Que seja, ao menos, um pouco mais a cada dia.

Vamos ao menos considerar a ideia e tentar? Estou disposto. :- )

Por Marcelo Salgado

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5 comentários sobre “O que é ridículo

  1. Maria Luiza Oswald disse:

    Eu te vi no programa Marcelo. Estranho….foi num dia que, por acaso, eu estava em casa naquela hora (dou aula na UERJ pela manhã) e, quer saber, achei que vc foi o entrevistado mais interessante. E nem sabia que vc participava do Sociotramas e que, portanto, deve conhecer Lucia Santaella. Gostei demais desse texto. Vou dividí-lo com meu grupo de pesquisa. Até mais…
    Maria Luiza

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