Jornadas de junho: o jogo de espelhos das redes sociais digitais

Na capa do seu número 14, o periódico francês Le Point estampa a figura de Friedrich Nietzsche (1844–1900). Aos 38 anos, o filósofo tem apoiada a cabeça sobre uma das mãos, cabelos alinhados, um bigode estufado. A manchete é imperativa: “deviens ce que tu es” ou, em curto português, “torna-te quem tu és”. O autor da sentença era poeta, grego, viveu entre 518 e 438 a.C. e atendia pelo nome de Píndaro. Mas basta uma pesquisa no Google para que o incógnito sem sobrenome perca o copyright para o “roi de l’alphorisme, de la frase courte et dense, idéale à l’époque des SMS et de Tweeter”. A própria Catherine Golliau, editora do Le Point e autora das últimas aspas, passa ao largo de Píndaro, muito embora ao poeta sejam dedicados 130 caracteres, página 111, seção “Léxico”.

1. Capa do periódico "Le Point", 2013.

1. Capa do periódico “Le Point”, 2013.

O perfil circunspecto do filósofo alemão, examinado com igual circunspecção, levou-me — de trem e metro — aos jardins do Musée Rodin e ao encontro da célebre escultura de bronze. O Pensador, de Auguste Rodin (1840 – 1917), segura o próprio queixo há exatos 110 anos. Lá, em algum lugar do lago sem fundo da minha consciência, o minúsculo Píndaro, um Nietzsche gravíssimo e um Rodin de 180 centímetros obrigaram-me a espremer a têmpora por duas horas seguidas. O tema da meditação: o oráculo Google e as manifestações capitaneadas pelo Movimento Passe Livre.

2. "Ônibus sem catraca". Fonte: Movimento Passe Livre — São Paulo.

2. “Ônibus sem catraca”. Fonte: Movimento Passe Livre — São Paulo.

Em Paris, não tenho aparelho televisor nem de rádio. As notícias chegam-me via nuvem: jornalismo on-line e redes sociais digitais, sobretudo. Nas primeiras horas do dia 14 de junho de 2013, publiquei um post na minha página do Facebook, comentando a prisão do jornalista e portador de vinagre Piero Locatelli. Horas mais tarde, no mesmo dia, compartilhei o vídeo em que um policial civil do Estado de São Paulo estilhaçava o vidro da própria viatura. Logo fervilharam postagens as mais diversas, desde acusações de vandalismo contra o patrimônio público (também chamados os atos, pela revista brasileira de maior circulação no país, “distúrbios de estudantes”), corpos inflados por bombas de efeito “moral” (ou “armamentos de distração”), advogados ocupados com habeas corpus de manifestantes tornados integrantes de quadrilha, a fotografia do velho Plínio e seu buquê de flores, agrupamento policial dobrando os joelhos debaixo de um “sem vi-o-lên-cia”, o comentarista do Jornal da Globo escrutinado por jornalista argentino. No dia 16 de junho de 2013, horas antes do jantar, eu já me sentia azeitada pelo fluxo de informações, escorregando entre o apoio às manifestações e a desconfiança em relação à plataforma do movimento, só crendo — de fato — no seguinte: as imagens de ações virulentas para “manutenção da ordem” não sustentavam justificativa, o volume de dados era incompatível com a minha capacidade para processá-lo e minhas noções de “plataforma” e “movimento social” deveriam ser reexaminadas.

3. Plínio Arruda. Foto de Jennifer Glass. Fonte: Site Conexão Jornalismo.

3. Plínio Arruda. Foto de Jennifer Glass. Fonte: Site Conexão Jornalismo.

Menos de um mês desde as manifestações, o Movimento Passe Livre daria a vez para a Mídia Ninja e o Circuito Fora do Eixo. O programa de entrevistas Roda Viva, exibido pela TV Cultura no dia 5 de agosto de 2013, fez disparar as timelines (TLs). Não demorou até que as opiniões começassem a boiar naquilo que Victoria Vesna chamou de “tsunami wave. Escreve Vesna, no ensaio Databases are Us: é preciso refletir sobre a relação entre consciência e a organização e disseminação de dados (“data”). De fato, “organizar” e “disseminar” são verbos capitais para a compreensão das redes sociais digitais. Mas “ordem” e “disseminação” não são noções transparentes, à maneira de vidraças polidas. No dicionário, “ordenar” é, também, “estipular por meio de ordem, instrução, comando”. O media theorist finlandês Jussi Parikka, em seu Viral Noise and the (Dis) Order of the Digital Culture, observa que a cultura tecnológica desenvolveu-se na vizinhança de valores similares àqueles incensados pela modernidade e pelo capitalismo. Assim, “padronizar”, “controlar”, “fazer circular” e “protocolos de segurança”, por exemplo, remontariam às divisas de progresso fincadas no século XIX. Considerado um “sistema” qualquer baseado em “dados confiáveis”, os temidos malwares (do inglês, malicious software) seriam equivalentes ao caos, um abscesso rompido ou potencial.

O termo genérico malware inclui todo elemento capaz de subverter operações previstas. O glossário do Virus Bulletin — publicação on-line constante das referências bibliográficas de Parikka — compila vocábulos tais quais cracker, logic bomb, man-in-the-middle attack, mule, potentially unwanted, vulnerability, web bug, zombie e outras entradas cujos nomes têm por característica antecipar o malgrado. Se compartilhantes do raciocínio que considera o malicious software um intruso (um comando não autorizado), tenderemos a julgá-lo um componente desorganizador. De maneira análoga, o desmedido jorro de publicações sobre um mesmo tema poderia ser considerado uma falha e a existência de “filtros” uma urgência. Se entendido como um imprevisto, o malware deve ser observado, para além de mero acidente técnico, o “estranho” produzido pela máquina controladora do capitalismo, “a sort of sans-papier — uncontrollable diversity”. Os vírus, os vermes, os cavalos de Tróia e os zumbis são o outro no jogo de espelhos criado pelo digital. “Um jogo de reflexão, durante o qual vamos descobrindo nossa própria estrutura existencial de um ponto de vista que nos é muito distante”, dirá Vilém Flusser, por ocasião da sua viscosa criatura filosófica, o Vampyroteuthis Infernalis.

4. Sans-papier. Fonte: Agora Vox.

4. Sans-papier. Fonte: Agora Vox.

De volta aos episódios do mês seis, ano corrente. As “jornadas de junho”, assim batizadas por Capilé durante entrevista concedida ao programa Roda Viva, fizeram circular inúmeras opiniões fragmentárias postadas de modo concomitante. (E, por curiosidade, pergunto-me se a denominação “jornadas de junho” faz referência direta às “journées de Juin 1848”). As redes sociais digitais funcionaram como uma espécie de repositório para dentro de onde escoou uma massa desorientadora de dados. As breves narrativas, construídas como coleção de informações (fotografias, vídeos, relatos pessoais, manchetes de jornais, repercussão internacional, memes etc.), obrigam-nos a rever nossa representação do tempo. Daí, talvez, a dificuldade para erguer um único juízo em torno dos fatos. O tempo para a meditação grave é devedor de certo modo de organizar as coisas do mundo. Organização cronológica, hierárquica e sucedânea (passado, presente e futuro). Por outro lado, a dinâmica da World Wide Web ensina-nos tanto sobre a natureza da rede, quanto sobre a matéria da vida. A experiência do humano é, senão, simultânea. Já a simultaneidade não é determinada por um segmento de reta orientado, mas por múltiplos atravessamentos. “Eu sou eu e minhas circunstâncias”, escreveu Ortega y Gasset, sem precisar a categoria temporal à qual pertenceriam as tais ocorrências episódicas.

A tsumani wave, colocada em curso pelas manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus, deverá ensinar nosso pensamento sobre os acidentes, os ruídos, as incongruências. Acidentes, ruídos e incongruências aqui entendidos como relatores de uma realidade que não é subterrânea, mas constituinte das redes sociais digitais. Em entrevista concedida à Editora Paulus, publicada na íntegra pelo Sociotramas, Lucia Santaella aponta: “A hipermobilidade cria espaços fluidos, múltiplos não apenas no interior das redes, como também nos deslocamentos espaço-temporais efetuados pelos indivíduos”. Tais deslocamentos são, também, cognitivos. A razão, para além da “racionalidade instrumental e estratégica”, não é um construto transmitido historicamente. Ela é, antes de tudo, um organismo vivo, dinâmico. O criptográfico “torna-te quem tu és” implica o abandono de velhas dicotomias. Para o homem hipermóvel, parece não haver caminho de volta.

5. Poorly Drawn Lines. Para outras luminescências.

5. Poorly Drawn Lines. Para outras luminescências.

Por Maria Ribeiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s