Por que nos tornamos ubíquos?

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Entrevista concedida por Lucia Santaella à Editora Paulus, por ocasião da publicação do livro Comunicação ubíqua. Repercussões na cultura e na educação, de Lucia Santaella, SP: Ed. Paulus, 2013.

Paulus: O que é comunicação ubíqua?

Lucia Santaella: Desde que os equipamentos móveis, geolocalizados, tornaram-se computadores miniaturizados que levamos para onde quer que estejamos, que nos conectam com pessoas em quaisquer partes do mundo e que nos dão acesso a um oceano infindo de informações também de quaisquer lugares do globo, entramos em uma era comunicacional que venho chamando de hipermobilidade. O que vem a ser isso? À mobilidade física, a capacidade que temos de nos locomovermos, é acrescida a mobilidade informacional e comunicacional. Por isso mesmo, banda larga, redes sem fio, móveis, são a tônica tecnológica do momento. A hipermobilidade cria espaços fluidos, múltiplos não apenas no interior das redes, como também nos deslocamentos espaço-temporais efetuados pelos indivíduos. Ora, hipermobilidade conectada produz ubiquidade. Quando falamos com alguém ou acessamos informação de qualquer lugar para qualquer outro, em qualquer que seja o momento, estamos na realidade copresentes: em presença tanto no lugar físico que ocupamos, quanto também naquele com o qual nos conectamos. Parece paradoxal, mas essa é a realidade. Se quisermos um nome mais sofisticado podemos chamar de presença-ausente ou ausência-presente, para garantir esse balanço entre estar e não estar, estando. Comunicação ubíqua implica, portanto, ubiquidade desdobrada. Ubiquidade dos aparelhos, das redes, da informação; ubiquidade das cidades, dos corpos e das mentes; ubiquidade da aprendizagem, ubiquidade da vida no escoar do tempo em que é vivida — como acontece, por exemplo, nas postagens incessantes que as pessoas fazem no Facebook.

P: Quais as principais diferenças entre a comunicação clássica e comunicação ubíqua? Esta última está associada à nova Era Digital?

LS: Certamente está aliada à era digital, nem poderia ser diferente. É difícil falar apenas na oposição entre comunicação clássica e comunicação digital. O que seria o clássico? É uma generalização muito grande que não leva em conta diferenciações importantes. Como venho discutindo em meus livros publicados pela Editora Paulus, o ser humano está alcançando agora a sexta era comunicacional e cultural: a era da oralidade, a era da escrita, a era impressa, a era das massas, a era das mídias e, agora, a era digital. Só nestas três últimas eras, já passamos por cinco revoluções comunicacionais distintas e crescentes. Elas tiveram início com os impactos da revolução industrial sobre a cultura (telégrafo, fotografia, explosão do jornal, cinema). Continuaram com a revolução eletro-eletrônica (rádio e TV) e passaram pela fase de disponibilização de pequenas mídias (controle remoto, videocassete, máquina de xerox, TV a cabo). Esta fase veio desaguar na era dos computadores ainda fixos para, finalmente, explodir no mundo da conexão onipresente propiciada pelos equipamentos móveis. É neste ponto que a comunicação se tornou ubíqua. Cada uma dessas eras apresenta modos diferenciados de comunicação, ambientes culturais distintos com todas as repercussões educacionais, artísticas, econômicas e políticas nos seus modos de exercer o poder e os contrapoderes. Para termos uma ideia da extrema complexidade do mundo em que vivemos, todas as eras culturais continuam vivas e agindo conjuntamente, de modo complementar. A digital é tão visível porque, quando novas mídias comunicacionais aparecem, elas tendem a roubar a cena e prestamos pouca atenção, talvez pela inércia do hábito, às eras anteriores — que continuam atuantes, mas com uma funcionalização diferente. A grande incógnita da avalanche digital é quais formas de comunicação anteriores ela vai levar de roldão e quais vão continuar vivas. Incógnita difícil de responder para quem não gosta de praticar a arte da profecia.

P: Você poderia falar sobre a ecologia das mídias?

LS: A ecologia pluralista da comunicação. Conectividade, mobilidade, ubiquidade é o título do meu livro editado pela Paulus em 2010. Mobilidade conecta esse livro com o que veio antes dele, Linguagens líquidas na era da mobilidade (2007) e ubiquidade o conecta com este novo livro que está sendo lançado agora e que tematiza especificamente a ubiquidade. Por que usei a metáfora da ecologia no livro de 2010? Além de estar presente em uma pluralidade de áreas interdisciplinares, o conceito de ecologia vem sendo cada vez mais apropriado pela comunicação. Esse é justo o caso quando se fala em uma ecologia da comunicação ou em uma ecologia midiática. Precedência não falta para justificar essa metáfora que já aparecia na influente obra de Bateson sobre a ecologia da mente. Ora, linguagens e comunicação são rebentos da mente. Nada mais natural que os estudos lingüísticos e de comunicação se apropriem do termo, pois o comportamento das línguas e de todos os demais tipos de signos e as dinâmicas comunicacionais que ensejam apresentam fortes similaridades com os organismos vivos. Certamente, quando a metáfora da ecologia é usada muito rigidamente nos estudos da comunicação, pode correr o risco de sugerir determinismo tecnológico. Com a devida precaução, seu uso pode ser bastante eficaz para a caracterização do crescimento da diversidade midiática. As mídias emergem de processos sociotécnicos caracterizados por padrões históricos de evolução, numa mistura de integração e substituição entre o velho e o novo. As outras duas palavras que aparecem muito no contexto das mídias são diversidade e convergência. Do mesmo modo que, nos sistemas complexos adaptativos, a diversidade brota de regras simples, a convergência simplifica os caminhos de modo a permitir a expansão da diversidade. Vem daí o adjetivo pluralista que acompanha a ecologia da comunicação no título do meu livro de 2010.

P: O que o leitor poderá esperar dessa nova obra?

LS: Que o leitor seja capaz de vislumbrar com menos opacidade os ambientes em que está vivendo.

P: A que tipo de leitor ela é indicada? Professores? Estudantes? Comunicólogos?

LS: Creio que meus livros se enquadram no repertório de um público universitário. O número de universidades e de programas de mestrado e doutorado explodiram no Brasil. Creio que é para eles, prioritariamente, que escrevo. As complexidades contemporâneas têm de ser compreendidas à luz da globalização (isso é inescapável), mas também in loco, de modo a capturar as contradições e os problemas que são próprios do nosso país. Assim, o contraponto entre autores internacionais e autores brasileiros que estão pensando sobre as emergências contemporâneas é muito relevante para quaisquer leitores que tenham a energia e boa vontade necessárias para se livrarem dos clichês e das respostas rasas e prontas que andam por aí.

Por Lucia Santaella

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