CIBERATIVISMO Versus CIBERMANIPULAÇÃO – Anonymous: quem está por trás dessa máscara?

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O Brasil é um país de muitas cores. Sua dimensão continental permite que ele seja mesmo uma amostra perfeita — proporcionalmente falando —  de tendências sul-americanas e até mesmo mundiais. Nesse sentido, os últimos acontecimentos, (mal?) denominados “primavera brasileira”, serviram como uma lupa sobre o estudo do ativismo social no ciberespaço. Longe de serem simplificados dicotomicamente entre mocinhos e bandidos, os ciberativistas no Brasil serviram, na verdade, para disparar um alerta sobre o perigo do agendamento — construção de sentido — no ciberespaço e sobre os fatores negativos e positivos que envolvem essa nova forma de viver e comunicar — verbos estes cada vez mais intrinsecamente atados.

Percebe-se que, com o passar dos anos, o que vem ocorrendo é justamente uma espécie de reeducação da sociedade diante das questões sociopolíticas. Era muito fácil se isolar na sua bolha de conforto e ligar a TV para assistir aos pronunciamentos oficiais. Hoje, estas questões são evidenciadas e se impõem ao cotidiano em diversas facetas e numa miríade de representações, dentro daquilo que se pode entender como tridimensionalidade de um fenômeno. Isto significa um movimento constante de tensão entre diversas fontes na construção de uma mensagem, permitindo uma compreensão privilegiada e exposição massiva de diversos assuntos; entre eles, muitos que enfatizam insatisfações coletivas e individuais. Essa exposição massiva, que alimenta e é alimentada pelos ativistas digitais, os ciberativistas, acabou  dando corpo a esse movimento popular — legítimo — da “primavera brasileira”. É preciso entender que houve uma espécie de mimetismo sociológico em relação à primavera árabe, notadamente ao último movimento realizado na Turquia, amplamente divulgado nas redes sociais digitais e na grande mídia. Diferentemente de lá, onde se trata de uma reação globalizada e verdadeiramente popular — porque consegue a adesão de uma camada mais representativa da sociedade, ou seja, pessoas de todas as idades, classes sociais e graus de escolaridade — que luta contra governos islâmicos ditatoriais, aqui houve majoritariamente mobilização setorizada. Em nosso caso, houve uma divisão entre jovens classe média baixa, na maioria sem ensino superior, e jovens universitários de classe média, chamados de geração shopping center, ou “coxinhas”.

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Postagens feitas por uma manifestante exemplificam (pela redação e pelo conteúdo) quem são os jovens que estão nas ruas.

Postagens feitas por uma manifestante exemplificam (pela redação e pelo conteúdo) quem são os jovens que estão nas ruas.

Mimetismo porque, com a manifestação pela redução da tarifa de ônibus e a repressão policial, criou-se um sentimento que impulsionou os jovens às ruas. Sentimento do qual se aproveitaram muitos personagens virtuais, notadamente o grupo Anonymous, que já “militava no Brasil” desde o segundo semestre de 2012 — e que subiu vertiginosamente de 45 mil curtidas a 1,5 milhão no Facebook. Isso aconteceu em menos de dois meses, graças à apropriação desse movimento popular pelo Anonymous por meio de estratégias de sedução diretamente associadas a uma geração que não lê, mas joga videogame e assiste filmes de ficção em que personagens heroicos revertem valores em prol de “causas maiores”.

A questão é que esse “personagem” autoclassificado como anarquista — embora outros anarquistas o rejeitem —  ganhou um perigoso poder e, em alguns momentos, induziu a atos ilegais e muitas vezes tendenciosos, ditando uma “agenda política” a seus  “seguidores”.

postagem na página do Anonymous.

postagem na página do Anonymous.

Seria inteligente e lógico desconfiar de personagens virtuais, dos quais não se sabe quem está por trás e com quais objetivos. Seria. Mas em um país que ainda tem altos índices de miséria e analfabetismo e uma baixíssima autoestima, associados a um ódio de classe evidente, esse tipo de “super-herói” mágico é recebido com um novo Messias, levando as pessoas a agirem sem reflexão.

Exemplo simples: se presencialmente me reúno com um grupo e antecipo um ato de depredação, não seria este um ato criminoso? Se antecipo quebrar, por exemplo, um prédio público, isso é vandalismo. E se planejo isso no virtual, não seria este um crime, mesmo assim?

Mas, se por um lado este personagem ganha grande influência, de outro lado este fenômeno vem suscitando reações em diferentes esferas. Percebe-se, por exemplo, uma classe média mais esclarecida e politizada, tentando reorientar esse orbe digital em uma direção mais consciente.

grupo que visa combater a alienação dos jovens ligados ao Anonymous.

grupo que visa combater a alienação dos jovens ligados ao Anonymous.

cidadão cobrando uma atitude coerente do personagem Anonymous.

cidadão cobrando uma atitude coerente do personagem Anonymous.

Essa vigilância é exatamente a expressão desse movimento de tensão multilateral que o mundo digital tem proposto. Isso dá uma tridimensionalidade aos fatos, porque os fenômenos são vistos de um ponto de vista em que tudo é realmente linguagem, ou seja, cada elemento de um fato é mais facilmente visualizado e, consequentemente, levado em consideração na formação de opinião do cidadão que habita nas redes. Não há mais apenas uma versão de uma história, há varias, dando profundidade, perspectiva, a um fato.

Mas, para exercitar essa capacidade de análise e ponderamento, é preciso, claro, certo nível de entendimento do mundo. Nível este que só a educação de qualidade pode proporcionar — e, sabemos, este não é exatamente o cenário brasileiro. Se não há acesso à educação de qualidade, uma considerável parte desses que saem às ruas acaba por ser formada de um rebanho sem direção, muitas vezes desnecessariamente violento e inflexivo.

Manipulado por quem também?

Manipulado por quem também?

EM TEMPO:

Não perca a discussão sobre esse e outros temas similares na aula magna no programa de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD/PUC-SP) com o pesquisador Richard Grusin, que falará sobre “The Dark Side of the Media”, no dia 13 de agosto de 2013, das 15h às 17h, no auditório do 1º andar, rua Caio Prado, 102.

Aguarde as inscrições.

Curta a nossa página para saber mais: https://www.facebook.com/Sociotramas

Por Kalynka Cruz

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7 comentários sobre “CIBERATIVISMO Versus CIBERMANIPULAÇÃO – Anonymous: quem está por trás dessa máscara?

  1. Maria Collier de Mendonca disse:

    Adorei, Kalynka! Uma belíssima análise! Concordo e compartilho a crítica de que é preciso atuar no ativismo sem máscaras!

  2. Hermano Cintra disse:

    “É preciso entender que houve uma espécie de mimetismo sociológico em relação à primavera árabe, notadamente ao último movimento realizado na Turquia, amplamente divulgado nas redes sociais digitais e na grande mídia. Diferentemente de lá, onde se trata de uma reação globalizada e verdadeiramente popular — porque consegue a adesão de uma camada mais representativa da sociedade, ou seja, pessoas de todas as idades, classes sociais e graus de escolaridade — que luta contra governos islâmicos ditatoriais, aqui houve majoritariamente mobilização setorizada.”

    leva a um leitura que não confere com os fatos. O governo da Turquia não pode ser classificado como uma ditadura islâmica. O país, que tem muitas similariedades com o Brasil, é uma democracia laica. O atual presidente Recep Tayyip Edogan foi eleito democraticamente e governa em acordo com uma constituição também democraticamente constituída. É verdade que seu partido é islâmico e que ele tem se tornado cada vez mais autoritário, porém não podemos colocá-lo no mesmo balaio que o Kadafi ou o Mubarak.

    O movimento lá tem características muito parecidas com o brasileiro. E as assinaturas que estão colhendo exigindo a renúncia do Erdogan são tão absurdas quanto seriam os jovens brasileiros começarem a coletar assinaturas para a renúncia da Dilma. Tentar derrubar presidentes eleitos é anti-democrático tanto lá quanto o seria aqui. A reação lá não é “verdadeiramente popular”, não há pessoas de todas idades e classes socias. Posso dizer isto como relato pessoal, pois acabo de voltar do país. Lá como aqui, temos nas ruas estudantes e uma significativa camada mais educada da população, mas muito longe de ser majoritária. Erdogan enfrentará eleições no ano que vem e mesmos os manifestantes mais ferrenhos não tem dúvida de que o partido dele levará a melhor porque a maior parte da população o apoia. A comparação possível é que em ambos os casos a brutalidade da polícia foi o verdadeiro estopim para revolta dos jovens.

    Não quero me alongar mais, mas acho que vale ainda pensar no que aconteceu recentemente no Egito e pensar sobre a complexidade de nossos tempos. Como podemos explicar que uma revolta popular efetiva, deu alguma legitimidade a um golpe de estado perpretado por militares? Sim, porque antes dos milhões de islâmicos que apoiam a Irmandade Mulçumana tomarem as ruas, quem tomou as ruas foram outros milhões de laicos que sentiam, com boa dose de razão, que o governo democraticamente eleito do Morsi estava lhes roubando a recém conquistada democracia, afinal democracia não é algo que se resume em eleições, é preciso haver respeito às mnorias, liberdade de expressão, credo, mobilização… coisas que o presidente eleito havia colocado em risco, e que a suprema corte do país constetou formalmente…

    • Kalynka Cruz disse:

      Hermano, que tal vc fazer um estudo sobre isso e apontar seu ponto de vista no seu próximo post? Conforme te sugeri por e-mail? Você se ofendeu e postou aqui, mas isso não mudará minha avaliação, sou pesquisadora, jornalista e professora. Meu texto se baseia em fatos. Concordo com vc em uma única coisa, trocaria o ditatorial por “tendência ditatorial”. No resto, acho que sua opinião precisaria ser melhor desenvolvida, em um texto mais isento, sem paixão. Bjs

      • Hermano Cintra disse:

        Não preciso de sua sugestão para fazer um estudo ou escrever aqui. Se fiz meu comentário por email antes, foi para lhe dar a oportunidade de corrigir um erro. Quer debater? Atente-se às ideias expostas e as discuta. Ao invés de dizer que minha opinião precisa ser mais desenvolvida ou ter menos paixão, exponha de maneira objetiva as falhas que nelas existam.

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