Always on, always live: mídia como reexistência

Fotos e diário de Oscar Monteiro Filho

Fotos e diário de Oscar Monteiro Filho

Há algum tempo, dentre o legado deixado por meu avô materno, eu e minha mãe encontramos algumas fotos antigas e o diário do meu bisavô. Após folhear as páginas amareladas e ler os textos escritos por ele com letra caligráfica, reparei que as poucas fotografias ganharam cor, ganharam vida. Deixaram de ser marrons, acinzentadas, antigas. Recuperaram o contexto. E, nelas, os olhos de meu bisavô voltaram a brilhar. Graças ao duplo registro, textual e imagético, meu bisavô, Oscar Monteiro Filho, gráfico, pai de seis filhos, que chegou a completar bodas de prata, mas morreu muito antes de me conhecer, passou a gozar da minha afeição, passou a existir para mim.

Passou a existir para mim… Repito eu, tentando ecoar a profundidade dessa afirmação. Conseguem acompanhar minha estupefação diante de tal fato?

Essa experiência permite que eu possa introduzir a problemática que me tem consumido e encantado ao longo do desenvolvimento de minha tese sobre tele-existência e subjetividade em plataformas ciberculturais. Embora tenha adiantado alguns aspectos àqueles que participaram do II Sociotramas, gostaria de resgatar a seguinte ideia: a experiência antropológica de ser-estar always on tem um “Q” de cerrada resistência, forma de aplacar uma velha-nova angústia — a inexorável passagem do tempo, a indefectível chegada da morte.  Entretanto, essa resistência não é nova: ela existe desde que o ser humano descobriu-se um ser-para-a-morte.

Nesse sentido, toda mídia é exercício humano de resistência, interessante solução simbólica para o problema da conservação ou duplicação da presença. Desde a mumificação dos corpos e produção de máscaras mortuárias modeladas sobre o rosto dos cadáveres — imagos das quais deriva a palavra “imagem” — até a geração de imagens indiciais (como as palmas de mãos ancestrais gravadas no fundo das cavernas) e icônicas, somados os registros escritos fundadores da História, a beleza moderna dos retratos, a pretensa precisão da fotografia e toda produção audiovisual e digital que marca o nosso tempo… Eis o mesmo problema: como evitar as sombras da velhice, enganar a morte, continuar presente, reexistir?

Asseguro: always on é a nossa nova aposta rumo ao always live, o melhor que achamos que podemos fazer.

Na contemporaneidade, optamos por alinharmo-nos à falange dos espectros e fantasmas ciberespaciais, prestando contínua manutenção às imagos virtuais que revestem nossas aparições. Rendemos, como nunca!, homenagem à vida: tudo é fotografado e publicizado no momento mesmo em que é vivido. Nada, por mais cotidiano ou banal que seja, pode ser desperdiçado, ficar à margem, sem registro. Mas nossa resistência toma, rapidamente, forma de desistência: rendidos ao encanto do mundo das imagens, onde o tempo não passa e nada muda nunca!, invertemos o sentido. Tele-existir deixou de ser um meio para ser um fim. É o próprio fim. Buraco negro que suga tempo de vida.

Buscamos o ser-para-sempre do hiper-real, do hiperespetacular. Na tela, imagens e mensagens esplendorosas de nós mesmos não sabem quando deixarão de ser indícios para tornarem-se epitáfios ou adornos de nosso sarcófago virtual. Nelas, já deixamos nossas almas. Porque, no real, pálidos zumbis, cansados e concentrados em alimentar suas imagens de vida com a seiva dos momentos, mal esperam para sucumbir. Vivem em dobro, intensamente. E ao mesmo tempo, mal vivem. Esfolam-se no esforço transhumano de desdobrarem-se, de reexistirem. De alcançar, por meio do always on, o always live.

Mas, como legítima filha do meu tempo, ainda que por vezes um tanto rebelde e inconformada… Espreito meus próprios medos e encontro humano-insano desejo: quem sabe meus perfis ou meu blog, no futuro então desabitados!, não possam contar para algum curioso bisneto quem eu tentei ser? O epitáfio, eu já escrevi!

Por Cíntia Dal Bello

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7 comentários sobre “Always on, always live: mídia como reexistência

  1. Vera Lúcia Vieira disse:

    Cíntia, gostei muito deste artigo! Parabéns!!! Seu epitáfio será muito interessante…rsrs… abraços e sucesso dentro e fora do ciberespaço! Vera.

  2. Paulo Alves de Lima disse:

    Salve Heródoto e Tucídides!, bem vinda a história Cíntia! A história não está na história, está na memória que se constitui à partir da narrativa que vive e se nutre do presente, logo não há história sem presente nem presente sem história.

  3. Sandra disse:

    Curioso!!! Quantos registros deixamos e deixaremos, um blog, um site, um arquivo, uma imensidão de fotos…com certeza a nossa relação com os que virão será diferente. Nossos registros ficarão de alguma forma, vivos e portanto imortais. Sandra Dal Bello

  4. Gustavo Freire disse:

    Muito boa a reflexão. Passamos a existir na memória e na construção simbólica daqueles que nos acessam em nossa tele-existência permeada. O efêmero passa a dar lugar ao resgate. O tecido imaginário se constroi e dá sentido ao que até então não passava de registros esquecidos em uma linha do tempo. Do always on ao always live, interessante! Mas saibamos que a nossa perpetuação no ciberespaço está sujeita ao interesse de quem detém o controle do sistema, das plataformas e dos sites em que estivemos inscritos.

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