Spotted: achados e perdidos

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Há uma novidade entre os usuários do Facebook — mais precisamente, internautas na faixa dos 20 anos. É a “Spotted”, uma tendência de sociabilidade que se espalha de maneira incrivelmente rápida.

A palavra spotted, na língua inglesa, possui o significado de “encontrado” ou “flagrado”, em tradução genérica. Foi escolhida para nomear uma atitude “facebookiana” atualmente predominante entre os jovens; porém, com implicações diferentes relativas ao país ou usuários.

No início, as páginas Spotteds tinham por alvo compartilhar, de forma anônima, momentos inusitados em lugares públicos — e assim, comunicar aos amigos interagentes de uma forma divertida e descontraída. As primeiras Spotteds surgiram no final de 2012 em universidades britânicas. Infelizmente, o espaço acabou se corrompendo com comentários preconceituosos dos próprios usuários.

Mesmo assim, ainda há Spotteds muito engraçadas e úteis que ampliam a atuação do internauta como um cidadão importante e responsável pela comunidade, dando-lhe voz ativa para reivindicações — mas prezando sempre o bom humor e o divertimento. Como exemplo, existe a Spotted “On the Train”, que compartilha situações e alfinetadas muito peculiares sobre o transporte público de Londres. Vale de tudo: foto, vídeo de pessoas malvestidas, pessoas fantasiadas, nudez inapropriada, publicidade, cantoria coletiva… E até gravações de pessoas incomuns, como o primeiro ministro do Reino-Unido, mostrado na foto abaixo.

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Você, leitor, pode se perguntar se o Brasil já participa dessa tendência social adotada pelos jovens estrangeiros; afinal, está tudo surgindo tão rápido que podemos duvidar se o Facebook brasileiro acompanha essas movimentações aceleradas da sociabilidade em rede. Pelo contrário. O Brasil não só aderiu à novidade como trouxe modificações para as páginas Spotteds, tornando-as, a meu ver, mais hilárias.

A importação do fenômeno se deu por meio de universitários de alguns lugares do Brasil. Mas, para os jovens brasileiros, conhecer pessoas é melhor do que insultar alguém; então, os estudantes adaptaram — ou melhor, modernizaram — o “correio elegante” da típica festa junina. Alvo de piadinhas, gozação e paquera, o correio elegante virtualizado da moçada agora é mais conhecido como Spotted.

Como funciona: você deseja conhecer alguém que te interesse, mas não teve coragem de, pessoalmente, socializar com ele(a) no refeitório, biblioteca, cantina ou nos corredores da “facul”. Então, você envia um recadinho — normalmente descrevendo a pessoa desejada — para os administradores da Spotted da sua universidade. Se condisser com os termos de postagem (xingar e denegrir alguém não vale), o post entra anonimamente e seu(ua) amado(a) pode, enfim, saber de seus sentimentos. Ótima saída pra os tímidos, como muitos queridos intelectuais que não praticam a arte da paquera.

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De cantadas a elogios, de versinhos a paródias, os posts das Spotteds brasileiras tornam a comunicação entre os universitários cada vez mais engraçada e descontraída: fazem com que a timidez vá embora e tornam a atitude do flerte — antes, talvez, desaprovada — super adequada ao ambiente.

As Spotteds estão fazendo tanto sucesso nas universidades brasileiras que a velocidade de aceitação e participação dos usuários é, muitas vezes, inacreditável. Destaco o exemplo da Spotted PUC-Rio, considerada a primeira criada no Brasil: em menos de um mês, já reunia mais de 11 mil membros. Uma estudante da universidade que residia na Alemanha percebeu que, se os alemães são vidrados nas Spotteds, porque os brasileiros não seriam? Assim, ela fez a Spotted da Puc-Rio e, desde o dia 26 de março até hoje, a iniciativa já tem mais de 13 mil usuários — estudantes da universidade ou não.

“O que importa para as comunidades virtuais é o espaço criado pela comunicação, um espaço em que relações interpessoais de confiança, afinidade e reciprocidade são mantidas voluntariamente, e não simplesmente porque se está situado em um mesmo local físico.” (SANTAELLA, Linguagens líquidas na era da mobilidade)

Aqui, nas Spotteds, o local físico proporciona a atitude do usuário ao postar na página — mas nem sempre é o mesmo local físico. Não necessariamente a descoberta do(a) amado(a) acontece na faculdade: algumas procuras relatam o ônibus ou o ponto de ônibus, as calçadas ao redor ou as lanchonetes próximas.

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Um “achados e perdidos”, não só de objetos, mas de pessoas. Hoje, as Spotteds já representam ruas movimentadas (como a Augusta, em São Paulo), shoppings, bares, boates e restaurantes. Sem dúvida, a Spotted é uma ferramenta a mais oferecida aos seus internautas.

O Facebook se transforma progressivamente, devido às finalidades e usabilidades apresentadas por seus usuários. Assim, foi necessário criar um ambiente separado, específico, o qual traz exclusivamente a função de paquera, de conhecer e comunicar-se com pessoas desconhecidas, mas que frequentam o mesmo ambiente na faculdade e online.

Este aspecto é muito interessante; a ponto de levar-nos a perceber com mais clareza as transformações que as redes e a virtualização proporcionam em diversas áreas das vidas dos indivíduos que as usam corriqueiramente. Além disso, a dependência humana de artifícios como as Spotteds para relacionar-se ou acreditar em uma união amorosa nos mostra que a condição humana de sociabilização se transforma na velocidade que os artifícios adotados se modificam.

Mas, sem dúvida, a internet fortalece essa relação de confiança coletiva embasada na fluidez dos relacionamentos virtuais — e as Spotteds são uma notável demonstração disso. Com certeza, as páginas Spotteds cresceram abruptamente e continuarão a crescer: uma novidade que já pegou e que, não duvido, evoluirá. Possivelmente, quando o Facebook perceber que é hora de oferecer outras ferramentas que suprirão alguma necessidade futura dos usuários.

Por Anyzaura Voltolini

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