Peeragogy: por uma pedagogia não hierárquica

Peeragogy

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Ken Robinson, em sua influente e divertida palestra no TED em 2006, vista mais de 16 milhões de vezes (se ainda não viu, não deixe de ver), começa pelo comentário: todos nós temos um importante interesse pessoal pela educação. Todos nós precisamos nos educar, e quando nos tornamos pais, ganhamos a responsabilidade de educar nossos filhos. Nenhuma das duas tarefas é simples ou fácil.

O ensino à distância é hoje uma realidade corriqueira. Diversas instituições de ensino têm ofertas variadas e fazem uso de diferentes ferramentas. Empresas lutam para ocupar espaços em um mercado há muito percebido como gigantesco. Vemos, hoje, escolas compradas para a formação de grandes corporações. Start-ups, como Udacity e Coursera, são lançadas com vasto financiamento e apoio de grandes universidades para distribuir cursos em escala mundial.

Este movimento certamente suscita a discussão sobre a educação transformada em mercadoria comoditizada, cujo valor se perde em interações cada vez mais pobres e massificadas. Exemplo do que Lucia Santaella costuma identificar como “super capitalismo”. Discussão certamente importante, mas que deixo para focar em outro movimento menos visível, mais disperso, caminhando em uma direção muito diferente.

Novas ideias, como as redes pessoais de aprendizagem (personal learning networks: PLN), os recursos educacionais abertos (Open Educational Resources: OER) e a curadoria digital (digital curation) estão muito mais para o mundo do DIY (do it yourself) do que para o da mercantilização da educação. Configuram estratégias de ação pessoal automotivada, no entanto, profundamente sociais; muito diversas do uso corriqueiro da internet e seus recursos como meras ferramentas de pesquisa, substitutas de enciclopédias e bibliotecas.

Há diversos exemplos de abordagens abertas e participativas de aprendizado. Este breve artigo não é capaz de dar conta deste universo. Mas vale citar alguns textos com caráter mais prático, escritos como guias:

A ideia de uma pedagogia entre pares, ou peeragogy, procura fundamentar práticas de aprendizado baseadas na interação a partir de mídias sociais digitais. Pretende-se construir uma abordagem não hierárquica, na qual o aprendizado autodidata deixa de ser solitário e passa a constituir uma experiência em grupo, organizada por estratégias específicas. O objetivo do guia é costurar as diversas abordagens teóricas existentes acerca do aprendizado entre pares, com a explicitação de práticas e ferramentas disponíveis.

Claro que o aprendizado entre pares não é uma novidade. Desde sempre aprendemos assim, como dizem os autores do Peeragogy:

“co-learning is ancient; the capacity for learning by imitation and more, to teach others what we know, is the essence of human culture. We are human because we learn together.”

Mas as mídias sociais digitais, ao transformarem as possibilidades da comunicação, também permitem reconstruir práticas de aprendizado; revitalizar modelos de aprendizado arraigados na estrutura hierárquica da relação professor/aluno de nossas tradicionais salas de aula.

É preciso construir novas estratégias partindo de princípios de automotivação e organização — condutoras de um aprendizado ativo que não apenas absorve, mas, assim como propõe a introdução ao MOOC (massive open online course) “PLENK2010 (Personal Learning Environments and Knowledge 2010)”, agrega, remixa, repropõe e republica conhecimentos. Porém, tomando o cuidado de evitar o tecnocentrismo, pois como já alertava Seymor Papert em 1987, antes do surgimento da Web:

“Our computer future could be made in many different forms. It will be determined not by the nature of the technology, but by a host of decisions of individual human beings. In the end, it is a political matter, a matter of social philosophy and of social decision how we will remake and rethink our world in the presence of technology. When we talk about computers in education, we should not think about a machine having an effect. We should be talking about the opportunity offered us, by this computer presence, to rethink what learning is all about, to rethink education.”

Um comentário muito atual, pois como discute Paul Stacey em seu recente artigo “The Pedagogy of MOOCs”, muitas das mais celebradas iniciativas neste segmento têm ficado restritas a serem gratuitas e massivas, enquanto simplesmente “digitalizam” métodos da relação professor/aluno e instrumentos, como manuais, testes e aulas expositivas, da escola tradicional.

Por último, faço aqui o convite aos interessados pelo tema para montarmos um grupo na PUC-SP para seguir o próximo curso “Learning Creative Learning”, de Mitchel Resnick, do MIT MediaLab, que deve ocorrer no segundo semestre de 2013. Veja abaixo o próprio pesquisador apresentando o curso (o primeiro acaba de terminar no início de maio).

Por Hermano Cintra

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