Táticas para os levantes do ciberativismo levam internautas às ruas

Estamos a vislumbrar uma era em que o ativismo digital extrapola causas estritamente políticas — no sentido de vinculá-las a partidos e governos. Diversos tipos de ações povoam o ciberespaço, incitando internautas ao engajamento, também, em pequenas causas, com novos tipos de manifestações que emergem com entusiasmo e energia similares.

Iniciativas como pedir assinaturas online para conseguir derrubar situações que prejudicam grupos pequenos de pessoas também são válidas e ganham força como prática cada vez mais comum. Basta olhar o rol de casos abrigados por empresas como Change.org e Avaaz — que arrecadam assinaturas de internautas por meio de pedidos em seus sites, divulgados nas redes sociais. De modo geral, são reivindicações de todo porte, das mais abrangentes às que envolvem pessoas e situações em uma única comunidade; muitas vezes, alcançam resultados positivos.

Encontros presenciais combinados via internet são outras ações que estão penetrando na rede. Eficientes para a troca de conhecimentos, por meio de cursos, workshops e palestras, essas chamadas reforçam sempre o lado apaixonado das pessoas pelos assuntos que ensinam, na intenção de atrair outros apaixonados pelos mesmos temas.

Interessante, para refletir sobre esse aspecto, trazer o argumento de Manuel Castells. Quando relaciona as formas de poder de ontem e o que podemos observar nos últimos anos, o autor argumenta que, “na medida em que há uma mudança organizativa e tecnológica no entorno da comunicação, mudam também os processos de comunicação, e como consequência as relações de poder”.

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Nós.vc

“Acreditamos no aprendizado coletivo através de encontros inspiradores”, dizem os criadores do site Nós.vc —uma plataforma de crowdlearning. Na apresentação da página, ressaltam a ideia do tête-à-tête: “Aprenda e ensine presencialmente, na sua cidade. Sim, só trabalhamos com pessoas de carne, osso e coração”.

“Uma nova forma de fazer barulho nasceu. Ações, manifestações, protestos e movimentos vêm brotando pelo mundo numa velocidade jamais vista”, argumentam os criadores no texto. “Além de criativas e ousadas, elas [as ações] se diferem por serem formadas por pessoas comuns que estão usando as mais diversas tecnologias disponíveis para mudar o mundo”, completam.

Eles, do Nós.vc, ressaltam também o início da atitude que, em geral, começa em casa. Ou melhor, de um computador, de um celular, de um tablet… Ou seja, que surge de alguém articulado em uma determinada causa, que começa a disparar a ação espalhando a seus pares.  “Precisamos entender o papel da internet nisso tudo. Assim como ela ajuda as pessoas a se reunir, se organizar e se conectar, ela oferece também novas formas de lutar por uma causa sem necessariamente sair de casa”.

Castells (2011) explica que essa é a passagem de um sistema totalmente dominado pela comunicação de massas, e centrado nos meios de comunicação de massas, para um sistema que pode ser denominado de autocomunicação de massas, por meio da internet. “Por autocomunicação de massas podemos entender a capacidade de cada pessoa para emitir suas mensagens, selecionar as que quer receber e organizar suas próprias redes — nas quais os conteúdos, as formas e os participantes são definidos de forma autônoma”. É claro que isso acontece em um cenário dominado por grandes empresas de comunicação e pelas empresas de internet, alerta o autor. Porém, ele reafirma que “dentro desse espaço existem possibilidades infinitamente maiores do que havia no espaço tradicional dos meios de comunicação de massa”.

Inúmeras iniciativas emergem na web. Entre elas, atuam empresas que apoiam esse tipo de ação, provocam interação entre envolvidos e ainda divulgam outros sites que fazem o mesmo. Uma dessas organizações é a Sicredi, que trabalha com negócios inspirados nos ideais cooperativos. “As pessoas estão percebendo que, através do cooperativismo, é possível unir viabilidade econômica e responsabilidade social. Estão descobrindo que cooperar é uma maneira inteligente e sustentável de viver”, conforme apresentação do blog Gente que coopera cresce. Aqui cabe um parêntesis para uma breve definição de cooperativa:

Trata-se de um instrumento de organização econômica da sociedade, criado na Europa no século XIX, caracterizando-se como uma forma de ajuda mútua através da cooperação e da parceria. É um modelo de negócio inclusivo, participativo e democrático, que carrega muitos valores, como a solidariedade, a adesão voluntária, a cooperação, o interesse coletivo e o compromisso com a comunidade.

Veja o que o pessoal do mesmo blog diz, por exemplo, sobre o Nós.vc: “O Nós.vc não quer saber de conhecimento guardado, escondido ou desperdiçado. Por isso, aproveita a multidão conectada para aproximar aqueles que têm interesses em comum”. Aproveitam para explicar também o funcionamento: “Depois disso, presta o serviço de produção do evento, do PowerPoint ao cafezinho. Também oferece a Consultoria Inspiring Learning, ajudando a criar uma proposta divertida e produtiva, na forma e no conteúdo, para o encontro”.

Na verdade, o encontro só acontece se houver quórum. “Compartilhe conhecimento. E sem risco. O encontro só acontece se alcançar o número mínimo de inscritos”. O que eles chamam de líder, ou seja, quem cria o curso ou palestra, estabelece se o evento vai ser gratuito ou pago e o onde vai acontecer. Quem define o número mínimo de inscritos e o prazo para alcançá-lo é o organizador inicial. “Se chegar lá, o encontro é confirmado e realizado. Se não, todo mundo que pagou recebe créditos pra usar no Nós.vc ou o dinheiro de volta”.

Como participar? Basta submeter uma proposta de curso, workshop ou debate sobre qualquer assunto. A equipe do Nós.vc faz uma primeira triagem e publica para votação do público. Além de manifestar seu interesse votando, a pessoa pode deixar comentários e sugerir modificações para melhorar a ideia. Quando um público suficiente aprova a proposta, o evento é realizado na cidade onde se encontra o maior número de interessados.

Em entrevista ao site Techtudo, os idealizadores do Nós.vc disseram, entre outras coisas, acreditar que o aprendizado não deve ficar restrito à educação garantida pelas instituições de ensino. “Há em todos os lugares pessoas, tanto com conhecimentos relevantes para passar a frente, quanto também para aprender coisas novas”.

Moradores que têm o objetivo de viver em suas cidades de maneira mais saudável procuram se unir para melhorar a qualidade de vida. Um exemplo é a Let’s Shoot The Shit — uma organização que induz, cria e executa projetos para transformar Porto Alegre em uma cidade mais inteligente, criativa e divertida, segundo consta na apresentação deles.

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PortoAlegre.cc

PortoAlegre.cc, criado dentro da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), é um desses projetos. “É concretização do conceito de Wikicidade. Este conceito se refere a uma plataforma digital que permite a discussão da história, a realidade e o futuro de territórios específicos”, dizem os criadores do projeto na apresentação do site. Moradores ou frequentadores de uma determinada região da cidade não somente debatem as questões urgentes, como chamam outras pessoas para “ajudarem a transformar essa ideia em realidade. […] É um espaço de radicalização da democracia, onde você tem voz e vez para discutir a cidade, mostrando o que ela tem de bom e o que precisa ser melhorado”.

Os 82 bairros da capital gaúcha estão representados dentro do PortoAlegre.cc. “Você poderá navegar pelo mapa e publicar conteúdos diretamente em sites de redes sociais como Twitter, Facebook, YouTube e Vimeo, falando de situações que te tocam na cidade — sempre lembrando que ela pode melhorar com a ajuda de todos”, aponta a apresentação.

O Meu Rio é um laboratório de novas interfaces de participação cívica que une a tecnologia à mobilização da sociedade para aproximar os cariocas da política, conforme apresentação do site. A iniciativa é importante na medida em que tem como missão construir uma nova cultura política com os cariocas; fazer, enfim, com que o cidadão comum possa participar efetivamente da construção de políticas públicas.

“Nós cariocas temos sim o poder de construir uma cidade melhor para todos e vamos mostrar que a nossa força pode trazer resultados surpreendentes”, diz o texto de abertura da página.

Conheça, também, o Na Panela de Pressão, um dos exemplos de ações de mobilização na cidade do Rio de Janeiro:

No Panela de Pressão a população e os movimentos sociais podem criar suas próprias campanhas de pressão popular. Porque na pressão tudo é mais rápido. A receita é simples: você aponta um problema, convoca outras pessoas que desejam a mesma mudança e pressiona diretamente políticos, empresários e administradores públicos, por e-mail, Twitter ou Facebook. Se você quer transformar o Rio que você vive, comece por aqui.

Obviamente, apesar de tratar de cidades, o ciberativismo ocorre em qualquer lugar do planeta. Espalhados pelo ciberespaço, coletivos se organizam para protestos. Neste domingo, dia 12/5, o grupo acampadasol estampa em seu blog: “[…] las asambleas 15M, mareas, PAH y otros colectivos convocamos manifestaciones contra la austeridad y las políticas de la troika y para exigir más democracia.” Eles se apresentam na abertura do manifesto:

¿Quiénes somos? Somos personas que hemos venido libre y voluntariamente que después de la manifestación decidimos reunirnos para seguir reivindicando la dignidad y la conciencia política y social. No representamos a ningún partido ni asociación. Nos une una vocación de cambio. Estamos aquí por dignidad y por solidaridad con quienes no pueden estar aquí.

#Acampadasol

#Acampadasol

O coletivo Let’s Do It!, com o movimento World Cleanup, tem o intuito de limpar cidades e já aproximou cerca de oito milhões de voluntários de cerca de cem países, com um saldo de 139 limpezas realizadas até a data deste post (domingo, 12/5). Começou em 2008 na Estônia (norte da Europa), quando 10 mil toneladas de lixo ilegal foram retiradas das beiras das estradas, margens de rios e etc. em todo o País. “Thus, the network of people determined to organize massive cleanup actions to clean their home countries, started to grow. By today, more than 100 different inspired cleanup actions, engaging altogether more than 5 million volunteers, have already taken place in different countries”. No Brasil, o movimento intitulado Limpa Brasil percorre cidades com voluntários catando lixo desde o ano de 2011.

Let’s Do It! - World Cleanup

Let’s Do It! – World Cleanup

Eu poderia ficar horas listando outras formas de ciberativismo que conseguem arregimentar pessoas, com o conhecido “efeito de multiplicação rápida”, para ações nos espaços onde vivem. São casos de movimentos que são se restringem ao chamado “cliqueativismo”, alcançando resultados concretos por meio de um uso consistente das possibilidades socializadoras da web. Por ora, paro por aqui deixando a sugestão para que você, internauta, assista ao vídeo da campanha para se tornar, também, um catador, fazendo bem à sua cidade.

Por Magaly Prado

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