“Se não tem no Google é porque não existe” — A relação dos teens com os meios digitais

Fonte: Tatiana Gladskikh – 123RF

Fonte: Tatiana Gladskikh – 123RF

Uma das formas mais divertidas e chocantes de se manter atualizado é relacionar-se com crianças e adolescentes. Por sorte, tenho esta oportunidade dentro de casa — como mãe — e no trabalho, como pesquisadora. A diferença entre crianças e adolescentes é que o primeiro grupo vai te colocar frente à realidade com uma obviedade acachapante, mas você ainda pode tentar disfarçar sua surpresa (ou ignorância) e manter a dignidade.  Já diante do segundo grupo, o vexame vai ser inevitável.

Não podemos ignorar que a busca de informações na internet já foi incorporada ao dia a dia de qualquer estudante — por mais precárias que sejam suas condições de acesso digital. Sentar-se frente a um livro em uma biblioteca é coisa do passado para estes jovens: a pesquisa digital é, inclusive, incentivada pelos educadores. Com o aumento da posse de smartphones e tablets entre jovens, a atividade de busca de informações eletrônicas ocorre 24 horas por dia, sete dias por semana. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2011), 41,9% dos entrevistados na faixa de 10 a 14 anos tinham celular próprio em 2011 no Brasil. Entre os jovens de 15 a 17 anos, esta porcentagem chegou a 67,5%.

Desnecessário discorrer aqui sobre a praticidade do ato de busca eletrônica para qualquer finalidade de pesquisa. O ponto que gostaríamos de discutir é a percepção dos jovens em relação ao conteúdo da internet. Em um estudo realizado em 2010 ouvi de um jovem de 13 anos: “… tudo o que eu quero saber eu procuro na internet. Se não tem no Google é porque não existe”.

Tirando o crachá de executiva e pensando na minha condição de mãe de adolescente, paralisei ao ouvir esta frase. Este adolescente não era o único na sala e, como ele, mais nove jovens concordaram com a afirmação e levantaram argumentos para defender que a internet é o ambiente de informações mais completo e verdadeiro do Universo.

Entra nesse momento o papel de pais e educadores no sentido de reforçar que a internet traz uma vastidão em informações, mas nem tudo o que está lá existe — e nem tudo é verdadeiro e completo. Concordo quando Eduardo D’Avila, em seu post para o Sociotramas, diz que precisamos pensar na Web como “uma vasta biblioteca onde a informação deve ser garimpada e lapidada para se tornar algo útil e relevante”. Isso nos move no sentido da pesquisa e da construção do pensamento e das ideias. Será ótimo se conseguirmos seguir nesta direção com os jovens.

Assustador mesmo foi quando, em outra ocasião, estava brincando em casa com meu filho de seis anos e um amiguinho da mesma idade. Estávamos falando de profissões quando eu soltei para o amiguinho a pergunta clássica: “João, o que você vai ser quando crescer?”. A resposta dele sem titubear: “Não sei ainda. Vou colocar no Google pra descobrir”. Só pra esclarecer: ele não estava dizendo que ia pesquisar profissões bacanas no Google. Ele quis dizer que o Google mostraria o que ele ia ser quando crescesse! Agora sim o Sr. Google tinha se transformado em entidade soberana do Universo.

Só por curiosidade, digitei no Google a frase “o que vou ser quando crescer” e recebi de volta 3.820.000 resultados. Assim fica difícil para uma criança de seis anos escolher entre tantas opções! Brincadeiras à parte, acredito que estamos em um momento de reflexão sobre como vamos lidar com esta percepção nos próximos anos.

Outro comportamento dos jovens que me fascina é o uso dos smartphones para troca de informações. No estudo que realizei com adolescentes em 2010 a troca de e-mails já era considerada uma atividade jurássica: “… só meus pais usam e-mail em casa…” era o que diziam os jovens de 12 a 14 anos com um tom que deixava claro a completa desatualização do hábito entre seus pares. A troca de mensagens entre jovens só tem valor se for instantânea, breve e principalmente com a possibilidade de estímulos visuais. Fotos e vídeos são os principais recursos utilizados pelos jovens em sua comunicação que pressupõe estar em contato com várias pessoas ao mesmo tempo — em tempo real.

Recentemente descobri com minha filha de 17 anos e seus amigos que existe um aplicativo de fotos muito comum entre eles. O nome é Snapchat e sua maior vantagem, na opinião deles, é que você pode tirar uma foto e enviar para outra pessoa de forma que essa foto dura no máximo dez segundos na mão do destinatário e do remetente. Minha pergunta ingênua: “Mas e se a foto ficar boa? Você não pode guardar?”. A resposta: “Claro que não, né, mãe! Essa é a graça: pode tirar foto boa ou ruim. Duram no máximo dez segundos e, se ficar feia, ninguém vai poder guardar”. Ah, tá… Pode tirar foto de qualquer bobagem que o registro será destruído em dez segundos.

No mês de março de 2013, o Snapchat entrou para o ranking dos 25 Apps mais baixados do iTunes.

A cada dia são desenvolvidos aplicativos que respondem a este ambiente liquido, móvel, instantâneo e efêmero. Em 2007, Lucia Santaella já nos alertava sobre os impactos do “enxame de câmeras digitais” em seu livro “Linguagens líquidas na era da mobilidade”. Estas câmeras, nas mãos de indivíduos ávidos por viver e registrar cada momento, tornaram-se extensões de seus corpos. Santaella reforça que, nesta nova realidade, “perde-se a noção do que especial e do que é trivial”.

Qual imagem será escolhida para ser eternizada e qual será escolhida para ser apagada instantaneamente entre tantos registros ao longo do dia? Devo manter gravada a foto da careta em frente ao espelho, a foto na balada com as amigas ou da sobremesa do almoço? Qual é mais relevante e merece ser guardada para todo o sempre? O que é especial e o que é trivial? Será que um dia saberemos?

Referência: SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007

Por Valeria Rossi Rodrigues

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2 comentários sobre ““Se não tem no Google é porque não existe” — A relação dos teens com os meios digitais

  1. Daniela disse:

    Sua pesquisa ja ficou obsoleta rsrsrs minha filha tem o Snapchat e eu como mãe fiz a mesma pergunta: Não da para gravar a foto? E ela respondeu: óbvio que da né mãe, basta vc tirar uma “print” (no caso do Iphone) quando vc fotografa a imagem que aparece na sua tela. rsrsrs Confesso que também fico perdida e mil perguntas me vem a cabeça… onde isso vai parar?Adorei o texto!

    • Valeria disse:

      rsrsrsrs é verdade, tem um jeito de fazer o print e por isso eles optam por deixar a imagem visivel durante somente 4 segundos. De acordo com eles é quase impossivel fazer o print neste tempo. Mas nunca se sabe…Enquanto eles tiverem paciencia para nos explicar estas novidades estaremos atualizadas! bjs e obrigada

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