#WANTED: faroeste nas redes

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As últimas semanas de abril ficaram marcadas por eventos assustadores — e os Estados Unidos foram o palco do horror. Em apenas três dias, os americanos vivenciaram duas tragédias colossais: a primeira, um atentado terrorista, com duas bombas, ao fim da maratona de Boston; a segunda, uma explosão acidental em uma fábrica de fertilizantes na pequena cidade de West, Texas.

Quero colocar politizações e a obviedade cruel do drama humano à parte. A cobertura da imprensa, sobre ambos os aspectos, já é abundante. Neste texto, foco meu olhar sobre o uso dos sites ou serviços de redes sociais (SRS) no terror em Boston. Depois, farei breves considerações a respeito de outro fato — muito menos violento, mas de consequências impressionantes: a agência de notícias Associated Press teve sua conta no Twitter hackeada.

O atentado terrorista ocorrido em 15 de abril ao fim da Maratona de Boston, nos EUA, matou (até o momento) quatro pessoas e feriu mais de cem. Além dos recursos mais tradicionais, como coletivas de imprensa, a polícia de Boston, o FBI e o prefeito da cidade também têm feito uso ágil e generoso do Twitter ao longo da investigação. Para além da dimensão crua do horror, o uso dos sites ou serviços de redes sociais digitais (SRS) foi central à tragédia em vários níveis — nem todos positivos.

Quando a polícia de Boston começou a divulgar em seu Twitter fotos dos suspeitos — os irmãos chechenos e muçulmanos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev — acompanhadas por hashtags como #WANTED (!!!) e #CommunityAllert, uma das consequências foi uma profusão de pistas falsas em sites como Reddit, 4chan e Twitter. Pior do que entulhar a investigação com distrações foi o que ocorreu a partir do Reddit: uma tragédia derivada de uma especulação errônea no site levou à morte um estudante de 22 anos, Sunil Tripathi. Por si só, algo tremendamente assustador e exemplar do poder dos SRS. O pouco barulho na imprensa sobre este assassinato também é inquietante. Registro feito, volto a falar da investigação e do ruidoso excesso de dados proporcionado pelas tecnologias digitais: felizmente, as mídias sociais digitais também podem ser extremamente úteis. No caso de Boston, foram.

O grande desafio para polícia e FBI seria processar todas as informações e separar o joio do trigo. Neste sentido, o marido americano de uma brasileira foi um dos responsáveis por prover uma das melhores fotos dos suspeitos — e tudo por acaso. Ele participava da maratona e bateu uma foto, com seu iPhone, logo após as explosões; depois, publicou-a em seu perfil em um SRS. Logo conheceria a mais profunda importância de seu, hoje, tão banal e humano impulso fotográfico digital: ajudar a prender terroristas. Em menos de cinco dias a partir do atentado, um dos suspeitos já estava morto e o outro, o irmão mais novo, foi detido. A polícia de Boston já trocava #WANTED e links para as fotos dos suspeitos em seu Twitter por “CAPTURED!!!The hunt is over. The search is done. The terror is over. And justice has won. Suspect in custody”. Ou: “CAPTURADO!!! A caçada acabou. A busca está feita. E a justiça venceu. Suspeito em custódia”. Aliás, com um estilo de linguagem bem literário e dramático, do jeito que americanos gostam.

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Mais um desdobramento ligado à Web e à investigação do atentado de Boston veio quando a CNN descobriu que um dos suspeitos do atentado chegou a publicar no YouTube o vídeo de um conhecido terrorista, mas logo o removeu — possivelmente, ao perceber o risco de ter suas pegadas rastreadas nas neves digitais. Como qualquer informação que já passeou pela Internet, uma vez neste peculiar espaço social, pouco ou nada adianta (tentar) apagar vestígios. No caso, a CNN descobriu o histórico do suspeito no YouTube e que o vídeo já fora adicionado por ele. Ainda: se por um lado, alguns especialistas discordam, outras fontes teclam a hipótese de que os supostos terroristas de Boston podem, de fato, ter sido “radicalizados” a respeito de sua religião islâmica no “espaço da Internet” — em ambientes como fóruns digitais. “Ela” está mesmo em todo lugar; e em lugar nenhum (págs. 85–87; 94–96), ao mesmo tempo. Agora, vamos virar a página.

Outro evento que colocou as redes sociais digitais na berlinda na segunda metade de abril aconteceu no dia 23: a conta no Twitter da agência de notícias Associated Press (AP) foi hackeada. Em questão de minutos, os hackers publicaram uma mensagem, em nome da AP, que teve o efeito de uma bomba nuclear no mercado — eles não foram nada sutis. “Breaking: Two Explosions in the White House and Barack Obama is injured” ou “Urgente: duas explosões na Casa Branca e Barack Obama está ferido”.

Sem demora, a AP recuperou sua conta e avisou que o tuíte era falso. Obama estava são e salvo, mas o índice Dow Jones, não: despencou mais de 100 pontos — e, em apenas 3 minutos, recuperou-se. Essa anedota não apenas nos faz lembrar porque a Economia é uma ciência social, mas, também, do enorme poder — aparentemente tão discreto — de um simples tuíte, uma modesta frase jogada aos quatro ventos digitais.

São esses zeros e uns que condenam, matam, derrubam, unem pessoas, salvam vidas e tanto mais. Perturbador e fascinante.

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Por Marcelo Salgado

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