Era das Luzes

Espectadores no funeral de João Paulo II, em 2005. Na segunda imagem, público aguarda o anúncio do novo Papa na praça São Pedro em 2013. Comparação postada por Tom MacIsaac do portal Verve Mobile

Espectadores no funeral de João Paulo II, em 2005. Na segunda imagem, público aguarda o anúncio do novo Papa na praça São Pedro em 2013. Comparação postada por Tom MacIsaac do portal Verve Mobile

Já foi-se o tempo em que efeitos reluzentes na plateia tinham a finalidade de criar um clima romântico, como no clipe Listen to your heart do Roxette (1988). Atualmente, poucos são os que continuam carregando isqueiros em seus bolsos; em contrapartida, os mesmos bolsos andam cheios de gadgets tão iluminadores quanto os antiquados acendedores de cigarros, com outras funções viciantes e virais, espalhando os momentos vividos pelas tramas das redes sociais.

A dupla de imagens comparativas que ilustra este post evidencia uma nova era de espectadores em eventos públicos. A presentificação tem (quase prioritariamente) o intuito do registro, que confere o pertencimento e a corporificação. Quem não filma, fotografa e posta, ali não esteve. As experiências são mediadas pelas telinhas de iPhones, iPads e tantos outros gadgets capazes de compartilhar imagens e frases via Facebook, Twitter ou demais serviços de redes sociais digitais.

Apesar das fotografias de 2005 e 2013 não se tratarem de eventos idênticos (anúncio de Bento XVI e Francisco I), como primeiramente foi anunciado no Instagram do Today Show, mas, sim, do enterro de João Paulo II em 2005 e do anúncio de Francisco I em 2013 — conforme a observação do Washington Post —, podemos ver em ambas a grande revolução imagética efetuada após o lançamento do iPhone. E, desde então, temos seis anos de grandes mudanças a partir das quais passamos a lidar com a presentidade por uma nova perspectiva: como um momento registrável, capturado para ser observado posteriormente, em sua qualidade de ausência espaço-temporal.

Se na época das Polaroids as fotos já congelavam o instante comparticipado, eternizando-o magicamente em papel, nas imagens adquiridas por meio dos celulares não é mais necessário o tiro certeiro, nem mesmo definitivo: o que está em voga são as incontáveis tentativas de imobilizar um momento controlável. Captura, confere, apaga. Busca uma nova pose, reexamina, reapaga. Posiciona-se, reposiciona-se, tenta novamente, desiste do clique, procura um outro ângulo mais fotogênico, um local mais iluminado… E, depois de tantas investidas, passa-se o resultado final pelos filtros dos aplicativos de edição automatizada, como os disponíveis no Instagram.

Para alguns, como Meryl Streep, a era das telas que resplandecem em todos os cantos da plateia faz com que as imagens tornem-se banais. Em suas palavras para a Revista Lola: “Vou ao teatro e ao cinema e as pessoas estão com seus iPhones nas mãos. É impressionante. É uma época diferente (…) as pessoas não conseguem se encontrar sem registrar cada segundo”. Mas os lamentos da atriz não parecem surtir efeito nas plateias mundo afora. A condição de espectador é suplantada pela vontade de tornar-se agente e produtor de imagens, anônimos prontos para narrarem os acontecimentos sob um ponto de vista diferenciado. Ali posicionados, todos são potenciais fotojornalistas free lancers, em uma situação participatória diversa dos que possuem credenciais oficiais e locais privilegiados para produzirem sua catalogação. E os espectadores podem ser mais sortudos que os profissionais do ramo, como foi o caso de Stefanie Gordon, que conseguiu captar uma imagem única do Ônibus Espacial Endeavour em maio de 2011.

Nesta Era das Luzes, todos estão sob os holofotes e as experiências tornam-se cada vez mais bidimensionalizadas. Os olhares estão desviados do sujeito de ação dos shows, comícios ou eventos célebres e atentos aos objetos-telinhas, telas e telões. No esmaecimento entre o corpo presente e a visibilidade bidimensionalizada do ato de captura das imagens, questiono qual seria a motivação de se deslocar até um acontecimento deste nível e vivenciá-lo em sua qualidade bidimensional, com as mãos ocupadas por câmeras e celulares.

E para as situações de viagem, fica a lembrança da frase de uma amiga que, certo dia, me disse seriamente: se não fizer ao menos mil imagens da próxima viagem, é porque não consegui embarcar a tempo. Fica a pergunta para os que estão em trânsito, munidos de seus passaportes de pesquisa: já fizeram suas mil imagens?

Por Mariane Cara

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s