Arriving at Toronto: Mothering & Mobile Technologies in Practice

Toda pesquisa acadêmica nasce de uma inquietação inicial que nos persegue intensamente e mobiliza um grande investimento emocional, energético, financeiro e intelectual ao longo de anos de trabalho. Certamente, por isso, minha amiga Mariana Egler, logo após defender seu doutorado, confessou: “não há distinção, sua tese é você! Separar o sujeito do objeto não funciona no cotidiano de um pesquisador!”.

Ultimamente, as palavras de Mariana sintetizam o que tenho apreendido, não só como pesquisadora, mas também como mãe brasileira, vivendo com o marido e a filha no Canadá. Estou realizando um estudo comparativo sobre as representações e significados da maternidade na publicidade brasileira e canadense; por isso, para mim era importantíssimo “maternar” neste país, de modo que nossas vivências familiares pudessem me ajudar a compreender o contexto canadense, suas semelhanças e diferenças com o Brasil.

Em 2009, vim a Toronto para apresentar minha pesquisa de mestrado em um congresso promovido pela Prof.ª Dr.ª. Andrea O’Reilly.  O’Reilly é professora titular na School of Women’s Studies na York University. Fundou e preside a Motherhood Initiative for Research and Community Involvement (MIRCI), organização que reúne pesquisadores de disciplinas variadas (women’s studies, comunicação, psicologia, antropologia, história, direito, políticas públicas, saúde, ativismo, entre outras) que trabalham com “Mothering and Motherhood”.

Andrea destaca-se na defesa de que o trabalho materno é uma prática que não se reduz a gênero nem às mães biológicas, pois o pai ou outro(a) cuidador(a) podem maternar uma criança. Para Andrea, Sarah Ruddick e Adrienne Rich, o pensamento materno torna possível uma política para a paz, porque é um compromisso voluntário, consciente, que não é inevitável, nem ditado pela natureza. A prática da maternagem relaciona-se com proteção, nutrição, treinamento, engajamento e valores culturais. Há, neste sentido, um senso de colaboração ou solidariedade que surge entre as mães. Este senso relaciona-se a transformações profundas que as experiências maternas geram nas mulheres. Apesar de complexo, o trabalho de “mothering” (maternagem) ainda tem sido raramente reconhecido, assim como pouco estudado academicamente. Por esse motivo, Andrea e suas redes de colaboração defendem que os estudos da maternidade e maternagem ocorram a partir de uma perspectiva ampla e multidisciplinar. É deste modo que o MIRCI interage com diferentes países, universidades e organizações, realizando conferências e editando publicações que variam deste livros a periódicos, como o JMI (Journal of the Motherhood Initiative).

A York University  é a terceira maior universidade do Canadá. Seu campus abriga cerca de 55.000 estudantes e 7000 funcionários, distribuídos em 11 faculdades e 28 centros de pesquisa. Já Toronto, cidade extremamente multicultural, é uma das maiores metrópoles da América do Norte. Conforme o CENSU canadense, em 2011, a população da região metropolitana de Toronto (GTA ou Greater Toronto Area) era formada por 49% de “não nascidos” no Canadá e já ultrapassava 6 milhões de habitantes.

Inserida neste contexto, York estimula a realização de intercâmbios internacionais para seus estudantes e recebe anualmente um grande número de estudantes e pesquisadores internacionais. No campus, falam-se diversas línguas; já nos encontros semanais com Andrea e suas alunas, convivo com uma nigeriana, uma turca, uma suíça, uma indiana e algumas canadenses. Atualmente, estamos nos preparando para a conferência que o MIRCI promoverá em junho de 2013, a qual integrará três temas: “Communicating Motherhood / Mothers Communicating “High Culture” to Pop Culture to New Social Media”, “Supporting and Empowering Mothers in the Academe: Strategies for Institutional Change and Individual Agency and others and Work” e “Mothering as Work: Policy, Ideology, Experience, and Representation”.

Tal como São Paulo, imigrantes de diferentes origens contribuíram na formação de Toronto, que evoluiu de uma economia industrial para a prestação de serviços, tornando-se o mais importante centro financeiro do país. Explorar Toronto é muito interessante. Alguns bairros concentram populações de origens específicas (Koreantown, Greektown, Chinatown, Little Italy, Little Portugal), outros se destacam pela presença de parques, fazendas e zoológicos urbanos (High Park, Riverdale); há também regiões de preservação histórica (Distillery District, Cabbagetown) e uma grande área central que inclui os principais museus, os campus das universidades de Toronto, Ryerson e OCAD (Ontario College of Art and Design) — além de áreas destinadas à moda, entretenimento e escritórios financeiros.

Para compor este post, tive o prazer de conversar com o Prof. Dr. Robert K. Logan e com a Prof.ª Dr.ª Barbara Crow. Entrevistei-os para divulgar o trabalho de seus laboratórios de pesquisa aos leitores do Sociotramas. Resultado: descobri que temos muitos assuntos para compartilhar entre Brasil e Canadá no que toca os estudos da comunicação, cultura digital, mobile medias e novas tecnologias!

Robert Logan (alguns papers dele aqui) é professor emérito da Universidade de Toronto, cientista-chefe do Strategic Innovation Lab na OCAD University e PhD em física pelo MIT (1965). Trabalhou com Marshall McLuhan na Universidade de Toronto, onde desenvolveu pesquisa sobre o tema da ecologia das mídias e a evolução das linguagens. Conhecemos Bob Logan no curso Understanding Marshal McLuhan— o qual ministrou em 2012, na PUC-SP . Dono de uma mente extremamente elástica, Logan navega dos mares da física, matemática e filosofia aos mares da “media ecology”! Em minha visita ao SLab, Bob falou sobre seu trabalho e trajetória acadêmica.

O SLab é um centro de pesquisa e inovação situado na Faculdade de Design da OCAD University, onde Bob leciona “Design Thinking” para alunos de graduação em design (web, industrial e gráfico), arquitetura e publicidade. Este laboratório opera a partir de um modelo de gestão que integra pesquisa acadêmica à capacitação e desenvolvimento de competências que favoreçam diferentes stakeholders (setor educacional, privado, público e terceiro setor). Suas atividades conectam pesquisadores, professores, estudantes e profissionais interessados em discutir futuros possíveis relacionados às áreas de design e business. Para isso, o SLab utiliza um método de colaboração interdisciplinar que resulta na produção de artigos, produtos e serviços proprietários; também, na promoção de eventos, workshops e oficinas participativas que reúnem profissionais do mercado, acadêmicos e estudantes. Seu escopo de pesquisa e atuação é amplo e aborda temas como: “Education Futures — Visualization, Collaboration, Play”; “Media Futures — 2020 Media Futures”; “sBook: Cross Platform Reading, Writing, Publishing”; “Design Futures — Designing for Emergence”; “Sustainable Futures — Strongly Sustainable Business Models”. E, ao longo de diferentes projetos, a equipe do SLab utiliza técnicas de “design thinking” (human-centred problem finding, problem framing and problem solving), “creative insight” (leading to innovative strategies, platforms, policies, systems), “strategic foresight” (thinking about, debating, planning, shaping the future), “STEEPV analysis” (social, technological, economic, ecological, political & values signals) e “understanding impacts”.

Mas, se você também está curioso para conhecer o trabalho de Marshall McLuhan, que foi um dos mais revolucionários pensadores no campo da comunicação no Século XX… Sugiro que leia já o paper assinado por Logan, disponível online na McLuhan Galaxy: McLuhan Misunderstood: Setting the Record Straight” . Depois disso, assista às gravações da maravilhosa aula ministrada pelo próprio McLuhan na ABC Radio National Network — na Austrália, em Junho de 1977 — disponíveis no Youtube: parte 1, parte 2 e parte 3.

Terminei a conversa com o Bob recebendo um convite para acompanhá-lo a uma Free Talk que começaria nos próximos vinte minutos, na Universidade de Toronto. Nesse momento, ele me avisou: “vá agora de metrô, porque eu irei de bicicleta. Então, nos veremos lá!”. Fiquei maravilhada ao ver um senhor, com mais de setenta anos, andar de bicicleta tranquilamente pelas ruas de Toronto e chegar lá primeiro do que eu, que usei o metrô! Em Toronto, fluem o trânsito, as ideias e as pessoas!

Barbara Crow é PhD em Sociologia pela York University. Além de diretora do MML (Mobile Media Lab), Crow atua como “Associate Dean da Faculty of Liberal Arts and Professional Studies”, na York. Antes disso, coordenou o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da York. Sua produção acadêmica reúne mais de vinte anos de trabalho nas áreas de tecnologias móveis, comunicações e women’s studies; já seus interesses de pesquisa relacionam-se às implicações sociais, culturais, políticas e econômicas das tecnologias digitais. Ao longo de nossa conversa, Barbara falou sobre o trabalho desenvolvido pelo MML; suas mais recentes pesquisas acadêmicas e o jornal online Wi (pronuncia-se Why), publicação focada nos estudos da cultura e tecnologias móveis, o qual coedita com a Prof.ª Dr.ª. Kim Sawchuk.

O Mobile Media Lab (MML) é um laboratório de pesquisa interdisciplinar que conta com pesquisadores da York University (em Toronto) e do Hexagrama, na Concordia University (em Montreal). É dirigido por Barbara Crow, Michael Longford (Coordenador e Professor Associado do Departamento de Design na York) e Kim Sawchuk (Professora Associada no Departamento de Communication Studies na Concordia e editora do Canadian Journal of Communication). Sua equipe explora o universo das comunicações sem fio, tecnologias móveis e mídias locativas; para tanto, reúne pesquisadores dos campos das artes, design, engenharias, novas mídias, teorias culturais, ciências sociais e políticas públicas. Os projetos do MML exploram diferentes dimensões culturais e estéticas das mídias e tecnologias móveis. Isto é feito a partir do uso de aparelhos como telefones celulares, PDAs, GPS, sensores Bluetooth e softwares open source para investigar como estas tecnologias podem aumentar, mediar ou promover novas sensações em contextos urbanos e espaços ao ar livre, quando da interação com usuários. Além disso, o trabalho colaborativo do MML é motivado por perguntas do tipo: como pode um melhor conhecimento do contexto ambiental, suas histórias sociais e saberes locais, influenciar o uso das mídias móveis? Que fatores relacionados a produção e legislação tem influenciado a produção, distribuição e uso das tecnologias móveis e wireless? Como se podem estreitar as tensões ou fronteiras entre mobilidade e imobilidade; analógico e digital; virtual e real? Quais são os ritmos temporais que vibram nesta nova ecologia das mídias? Entre outras!

Em suas pesquisas mais recentes, Barbara e Kim tem investigado a relação da terceira idade com as tecnologias móveis, os telefones celulares e as redes sociais. Elas observaram que os discursos (corporativos e acadêmicos) relacionados às tecnologias móveis estavam promovendo o que era novo e emergente —_ ou seja, valores como a juventude, a inovação, a criatividade, a descartabilidade e a produtividade —_ em detrimento do que era considerado “velho”; logo, desinteressante. Então, as autoras resolveram estudar como esses discursos estavam construindo um ideal de sujeito móvel e usuário imaginário, implícita ou explicitamente relacionando as novas mídias a usuários jovens. Desta maneira, Crow e Sawchuk estudaram não apenas os discursos propriamente ditos, mas também como as interações e usos das tecnologias móveis estavam ocorrendo entre diferentes gerações (desde os jovens até os idosos). Seus objetivos incluíam compreender quem eram os reais “sujeitos móveis”, além de descobrir suas demandas e valores; para isso, Barbara e Kim analisaram dados estatísticos do governo e indústria canadense e encamparam mais de trezentas entrevistas com usuários de telefones celulares, redes sociais e tecnologias móveis no Canadá. Para saber mais sobre as descobertas deste projeto, assista à apresentação de Barbara no TED TALK realizado na York, em 2012: “Canadians at the cross-roads: old, young and mobile phones”. Ou consulte informações online do projeto Senior and Cells.

Minha conclusão é que seria impossível sintetizar neste post o quanto tenho aprendido nos encontros com Andrea O’Reilly ou o quanto aprendi nas entrevistas com Barbara Crow e Bob Logan. Então, eu gostaria de enfatizar a vocês, leitores do Sociotramas, que tanto Andrea, Barbara e Bob tem me ensinado que é possível pesquisar um tema —_ seja ele “motherhood in advertising” ou “mobile media & technologies in practice” — a partir de um escopo abrangente e interdisciplinar, capaz de abraçar como este tema afeta a vida cotidiana das pessoas. Em síntese, no Canadá, eu tenho aprendido o que a expressão “media ecology” significa na prática e como é possível refletir sobre a comunicação a partir do “environment that is surrounding it”. Quero dizer, os estudiosos da comunicação, das mídias e tecnologias móveis que tenho conhecido no Canadá enfatizam a importância da exploração do nosso campo de forma interconectada —_ para além dos “devices”— considerando seus efeitos, consequências, possibilidades e potencialidades para usuários, acadêmicos, escolas, fabricantes, ativistas, cidades, governos e políticas. Para encerrar, vou parafrasear Marshall McLuhan e terminar o post assim: “You don’t like those ideas? Toronto got others! So, welcome and enjoy it!”.

Por Maria Collier de Mendonça

* Maria Collier de Mendonça é bolsista da Capes, está realizando estágio de doutorado sanduíche na York University em Toronto, Canadá. É pesquisadora do Sociotramas, aluna do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP e professora licenciada do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo.

Fotos:

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Um comentário sobre “Arriving at Toronto: Mothering & Mobile Technologies in Practice

  1. Eduardo Mosaner Jr disse:

    Excelente! Tanto os comentários da Maria Collier como a abordagem da disciplina “Design Thinking” que o Logan ministra no SLAB.
    Eduardo Mosaner Jr

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