À exceção de Paris

À exceção de Paris - Maria Ribeiro

À exceção de Paris – Maria Ribeiro

Então, eu moraria na Alemanha. Lá o idioma. Alemão, por supuesto. Tendo lido Joyce, e seu monumental Finnegans Wake, dei por mim que as coisas do mundo têm a dimensão da palavra inventada. Daí um assento ser banco, cadeira, espreguiçadeira, rede, chão, o colo de alguém, as barras de ferro instaladas nos metrôs, chaiselongue. E assentar-se ser não a referência ao objeto físico, coisa sobre a qual colocamo-nos em repouso, mas as inescrutáveis possibilidades inscritas no verbo. Assim, o banco para olho que captura a árvore. A rede para quem nem bem senta, nem bem deita. A chaisepara o distraído que folheia uma revista de decoração. Minha língua portuguesa é, ao mesmo tempo, minha chave e minha cela. Então, eu moraria na Alemanha. Lá o idioma. Alemão. E a oportunidade para assistir ao rompimento de algumas das cadeias causais com as quais meu raciocínio havia se habituado.

(Tantos anos antes, o tcheco-brasileiro VilémFlusser teria dado legenda para aquela impressão. No seu livro Língua e Realidade, página 50, tomou nota: “O estudo da língua tal como é percebida equivale à pesquisa de um cosmos”).

No ano de 2011, quando o doutorado sanduíche passou da vagueza para uma pequena obsessão doméstica ― e minha rotina incluindo intermináveis listas coladas nos vidros da sala de estudos ― dei com o título de uma disciplina, aparecendo e desaparecendo no quadro virtual de avisos da FFLCH: Perspectivas Epistemológicas e Filosóficas do Conhecimento Científico. Veja. Qualquer visada sobre o conhecimento científico seria, por si, de interesse, dado estar atada― a tal visada ― ao nascimento de uma ideia considerada relevante para um grupo de pesquisadores. Mas que semelhante perspectiva fosse epistemológica e filosófica já me soava bilhete premiado. Ali, diante, piscando, no minúsculo quadrangular do meu netbook. Não fosse suficiente, o curso seria oferecido pelo IEE – USP (Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo). Físicos, químicos, biólogos, economistas e, decerto, nada de “torrão fordista”.

(Ainda durante o mestrado, à leitura de dissertações e teses nas áreas de Comunicação e Semiótica, defendidas no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, seguiu-se a observação de pesquisas-comentário. Há sempre quem julgue relevante dedicar um volume inteiro àquilo que um ou outro incensado escreveu, ocupando-se com os sentidos subterrâneos de um e outro parágrafo. A pseudoteoria do torrão fordistajulga ter descoberto a origem do problema. Senão A Origem, uma hipótese. De acordo com as Normas Técnicas para Transplantes de Espécimes Vegetais, aqui e ali e registradas na Internet, em geral, um consenso: deve-se preservar o torrão. Torrão, lato sensu, círculo maciço de raízes e terra que contorna o caule da planta. Assim, quando de lá para cá, o tronco carrega para o novo território sua trouxinha, confeccionada em biodegradáveis sacos de juta. No fardo, punhados de solo e radículas, o quase suficiente para os aproximados 365 dias até que a ramada seja, outra vez, plantada. Na trouxinha da Comunicação, um conjunto de conceitos tornados substantivos, considerado, o conjunto, estandarte do rigor científico. Então, o torrão é transportado de uma pesquisa para outra e enterrado em algum lugar entre os agradecimentos e as referências bibliográficas).

Beatriz Sorrentino, doutoranda em Filosofia pela Universidade de São Paulo e eu, Maria Ribeiro, doutoranda interessada na potência diagramática e sua contribuição epistemológica para o campo da Comunicação. Eis o núcleo das ciências humanas, arremessado para dentro da complexa maquinaria que faz rodar o pensamento chamado exato. Acomodados lado a lado, em mesas assemelhadas àquelas de refeitório, vimos irromper o professor Michel Paty, directeur de recherchehonoraire no CNRS (Centre National de laRechercheScientifique), um homem que, para ser breve, carrega o sol dentro do bolso. Já durante a aula de número um, segundo os garranchos desenhados no meu caderno, discutimos Newton, Boltzmann, Bachelard, Bunge, Einstein, Heinsenberg e outros tantos escapados para dentro do meu absoluto fascínio. Passados 15 anos de estudos, contados desde o ensino fundamental, eu experimentava minha primeira experiência interdisciplinar. Na obra A matéria roubada: a apropriação crítica do objeto da física contemporânea, Paty convoca-nos ao estudo dos processos por meio dos quais os conceitos cumprem seu programa científico. Quando as ciências da natureza são confrontadas com a natureza da ciência, ou o pensamento filosófico ele próprio, problemas outros emergem do enfrentamento. E tais problemas parecem tão mais relevantes quando dedicados à prancheta, ao escrutínio das operações articuladas por grandes pensadores.

Michel Paty, nascido francês, recebeu-me em duas ocasiões, a saber, a primeira e a segunda edição do seu curso. Matriculada como aluna especial, coube-me apresentar parte do projeto de pesquisa e enfrentar a sabatina curiosa de economistas, físicos, químicos, biólogos, matemáticos e outros. O que, certo modo, fez iluminar cantos ignorados do meu objeto. Ali, naquela pequena sala do Instituto de Eletrotécnica e Energia, muito antes dos procedimentos consulares, meu passaporte havia mudado de destino. Por ocasião da minha chegada, ainda dia do meu desembarque em solo francês, beliscava um croque monsieur quando dois senhores caminharam até minha mesa: “bom appétit, mademoiselle etbonnejournée”. Então, o primeiro disparo. Eu estava em Paris. E o francês, minha primeira experiência de desmontagem referencial.

Passaporte para a pesquisa - Sociotramas

Passaporte para a pesquisa – Sociotramas

Por Maria Ribeiro

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