Escrever pode bem ser uma forma de felicidade

Jardim de inverno - Kassel

Jardim de inverno – Kassel

Não é preciso dizer que escrevo muitos livros. Sou uma fêmea teórica, irremediavelmente. A compulsão pelos conceitos e teorias me é irresistível. Por marca do destino, sou despida de talento para a ficção e a poesia, embora não viva sem elas. Aprendi a cultivar a consciência dos limites que traçam a minha incompletude, uma falta que, aliás, me identifica com os outros seres humanos. “Não há nada que possa melhor definir a nossa identidade pessoal do que nossas falhas e limites”, dizia Peirce. Assim, no início, escrevia livros para facilitar a minha vida pedagógica — e a dos alunos também, era o que pensava.

Logo depois, comecei a escrever para não esquecer. Com o tempo, a atração pela pesquisa foi tomando o primeiro plano na minha carreira — mais ainda do que a docência, que é uma paixão congênita. Pesquisamos um assunto, devoramos livros em papel ou tela, fazemos marcações, tomamos notas no digital, este grande amigo do pesquisador. É impensável que, há alguns anos, conseguíamos pesquisar e escrever sem ele, a passos de tartaruga, vale dizer.

Contudo, se não registramos imediatamente as ideias que nasceram da pesquisa, em poucos meses, a fugacidade da memória biológica dá conta de transformar ideias em neblina, algo como um fog londrino para quem o conhece, que, neste caso, em vez de embaçar a paisagem, anuvia a mente. Afinal, situados nas humanidades, os labirintos dos infindos discursos alheios entremeados aos nossos pensamentos não são tão fáceis de gravar quanto fórmulas e algoritmos. Portanto, escrever é um modo de driblar a vulnerabilidade da memória. E não temos do que reclamar, pois a memória vai apagando, vida afora, não só os fugidios instantes do êxtase mais sublime quanto os sofrimentos intensos que nos descarnam.

Mais alguns anos se passaram, e continuei a escrever, então, também para aprender. Só internalizamos verdadeiramente aquilo que pesquisamos, quando enfrentamos corajosa e obstinadamente o ato da escritura. Para isso, precisamos nos munir de determinação e bravura psíquica. O saudoso e genial Décio Pignatari costumava repetir que escrever é como enfrentar o touro a unha. Dá para acreditar, vindo de alguém cuja escrita parece brotar das forças ocultas dos deuses. De fato, nunca é fácil escrever, nem para os gênios. O vazio da folha/tela branca é o retrato mais bem acabado da angústia que nos assombra, pois angústia é afeto sem objeto. Ademais, há sempre alguma escusa, alguma indolência, algum subterfúgio para escapar da escrita. Afinal, o mundo lá fora nos parece sempre tão recheado de emoções: nossos amigos, os familiares, filmes de excelência e outros nem tanto, pouco importa, a televisão que, com sua profundidade de poça d’água, nos acolhe e distrai do cansaço do trabalho… E agora, certamente, as redes sociais, que nos sugam, sem resistência possível, para dentro delas como um buraco negro. Será que sou viciada em internet? Perguntava-se Marion Strecker em uma saborosa matéria outro dia, no jornal.

Por fim, em tempos mais recentes, escrever converteu-se para mim em uma forma de felicidade. Pilhas de livros, por todos os lados, merecidamente bem lidos ou mal lidos por falta de merecimento, a mente entra em alfa, as ideias tramadas no pensamento antes da escritura, jorram na superfície e, como por milagre, trazem outras, inesperadas, surpreendentes, ainda nem vislumbradas. Parafraseando Merleau Ponty: minha fala me ensina o meu pensamento. E, nesses momentos, até parece que não somos incompletos. Uma ilusão que dura o tempo exato da escritura e que evapora, sem piedade nem perdão, tão logo ela cessa.

Vista da janela - Kassel

Vista da janela – Kassel

Tudo isso para dizer que estou em estágio de pesquisa na Alemanha para terminar um livro e começar outro. Há muitos anos, abdico das férias — tanto no calor quanto no frio, mais na brancura gélida do que no calor — para enfurnar-me em grandes bibliotecas. São lugares em que, com autodisciplina e bem longe da autoindulgência, o ar que se respira é feito de pesquisa. O stuff the dreams are made on, de Shakespeare, vira, então, o estofo de que são feitas as idéias bem alimentadas. Quem sabe o que é uma grande biblioteca, na acrópole de um campus e, como se não bastasse, circundada por muitas outras bibliotecas especializadas nas distintas regiões da ciência, vai compreender o que digo. Não há o que se procure que não seja encontrado. E com o “e-tudo” e o university loan, o que não está lá, virá de algum outro lugar para suas mãos em frações de horas ou poucos dias, para que o ritmo do trabalho não seja interrompido em estado de estagnação.

Há poucos dias, provavelmente em link no Face, li matéria de Vladimir Safatle que denuncia: centenas de escolas no Brasil não têm bibliotecas. Nenhum livro. Se não chegam a esse nível de carência, as bibliotecas universitárias sofrem de anemia aparentemente incurável — assim como são incuráveis outros males, até bem piores, do país. Não por acaso, um pesquisador norte-americano, que esteve em visita no Brasil por um ano e meio, costuma repetir, em suas palestras pelo mundo, que conhece todos os tipos de universidades — abertas, livres, a distância —, mas que o Brasil tem o privilégio de possuir um tipo raro de universidade: a universidade sem livros. Já o ouvi dizer isso em público, com um sorriso maroto para mim, pelo menos umas três vezes. Não posso fazer outra coisa senão, humilhada, baixar a cabeça e sofrer em silêncio.

Lucia Santaella

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8 comentários sobre “Escrever pode bem ser uma forma de felicidade

  1. Augusto Freire disse:

    Realmente, observar que escrever é um ato complexo, tanto angustiante quanto prazeroso, até para exímios escritores, é ao mesmo tempo reconfortante e inspirador! – um texto delicioso esse, muchas gracias! 🙂

  2. Bianca disse:

    Concordo com a profa. Santaella é realmente constrangedor nossas Universidades sem livros! Agradeço por compartilhar um texto cheio de verdades silenciadas e desnudas pelo seu ato brilhante!

  3. Clara Silveira Machado disse:

    Que maravilha esse seu prazer pela pesquisa; deixou uma sementinha em sua aluna; obrigada por ter convivido com vc; é um exemplo sempre … Gostei de sua escritura. Beijão

  4. Pedro Severiano disse:

    Belo texto da nossa teórica acadêmica da PUC-SP..Estudei na PUC-SP no fim da década de 80 o nome dessa magnifica professora era citado em cursos no qual estudei Ciências Sociais; ultimamente cerca de dois anos para cá passei a ver palestras … ler artigos de Santaella. tudo na internet…e voltei ate a ler um livro acadêmico coisa que não fazia a um bom tempo… graças ao olhar atento dessa grande pesquisadora…Ao contrario de alguns que abandonaram a Universidade Católica de São paulo em busca de refugio ..em outros centros acadêmicos …Santaella mostra e da um lição de perseverança de continuar na UNIVERSIDADE que é sua mãe acadêmica e demonstra todo o tempo que é possível resistir criar.. invetar e ser uma da mais brilhantes pesquisadoras da atualidade.. qualquer dias desses tomo coragem e vou assistir sua aula na pó graduação da puc-sp e roubar dela um autografo..lógico e um dos seus livros e uma foto…para registrar..um momento de afeto por essa grande pesquisador…obrigado professora…

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