Passaporte: direction Paris

Lucia Santaella está sentada diante de seu computador, imersa, enquanto a mente viaja bytes adentro. Maria Ribeiro organiza seus livros e responde e-mails pelo smartphone. Patrícia Fanaya compartilha um artigo na rede. Maria Mendonça discute parcerias com um professor e as transmite on-line. E eu estou no trem, usando um aplicativo no iPhone, a fim de captar possíveis entrevistados para minha pesquisa sobre o amor e as novas tecnologias, enquanto sigo tecendo a trama do post que você lê agora. Todos integram o grupo de pesquisadores Sociotramas. O contato entre nós é, normalmente, diário; às vezes, frenético, entremeado por dezenas de e-mails consecutivos e bate-papos pelo Facetalk. Em comum, além de fazer parte do Sociotramas (também composto por Marcelo, Magaly, Thiago, Roger, Adriano, Patrícia, Hermano e muitos outros), estamos, alguns de nós, espalhados pelo mundo. Somos sociotrameiros com passaportes carimbados.

Clique aqui no mapa maior e em cada pin para melhor visualizar e saber sobre as pesquisadores

Maria Ribeiro e eu estamos em Paris (França). Patrícia Fanaya, na Pennsylvania (USA). Maria Mendonça, em Toronto (Canadá) e Lucia Santaella em Kassel (Alemanha). O senso de pertencimento ao grupo de pesquisa ― dedicado ao estudo das redes sociais na internet e temas circundantes ― e o compromisso com a busca pelo conhecimento fazem com que a distância seja mais um elemento de fortalecimento e enriquecimento do que um fator de dispersão. E é por esse motivo que surgiu a idéia de criar um selo, o “Passaporte para a Pesquisa”, que será utilizado em uma série de posts especiais sobre a experiência de viver, estudar e pesquisar em outro país. Ainda que, para nós, estudar e pesquisar seja sinônimo de viver!

A estreia é minha, seguida pelas Marias, por Patrícia e, é claro, pela própria Lucia Santaella — que atravessa o oceano todos os semestres para se dedicar por alguns meses, exclusivamente, às suas produções acadêmicas, para o prazer de todos aqueles que amam sua obra. Haverá também a participação dos que já estiveram fora e, hoje, voltaram para o Brasil. Então, vamos lá! Acompanhem um pouco de minha viagem.

A primeira vez que entrei em Sorbonne, com minha carteira de estudante, exigida na entrada, minhas pernas tremeram, juro. Acalentava esse sonho desde minha infância. Harvard para alguns, Sorbonne para mim. Afinal, assistir aula dos grandes doutores, nas centenárias salas de Sorbonne, com suas paredes cheias de livros e tetos artisticamente ornamentados e, em seguida, tomar um café (ou um bordeau) cheio de inspirações acadêmicas, no L’Ecritoire – berço dos grandes teóricos franceses – observando o fluxo dos doutores e doutorandos enquanto tento adivinhar o que lhes passa pela cabeça… É alguma coisa como ganhar uma cadeira confortável na primeira fileira do paraíso.

No entanto, assistir às aulas em Sorbonne é sempre uma experiência tão subjetiva e intensa, que preciso ainda de mais tempo para poder compartilhar com qualidade minhas reais impressões por aqui. De outro lado, há todo o entorno da Universidade, vocês sabem…Aquele lugar mágico chamado Paris!!! Seu magnetismo, seu charme e suas avenidas cheias de merecida arrogância e beleza. E, embora Paris sempre mereça algumas linhas apaixonadas, também não vou falar dela. Prefiro contar-lhes da Paris digital, a mesma que venho conhecendo a cada dia.

Gosto de dizer que o melhor amigo do pesquisador é a solidão. Aprendi isso ainda no Mestrado, quando Santaella, conhecedora do poder que o silêncio tem, ajudou-me a transformar o vazio dos dias em uma pesquisa rica e em uma dissertação que recebeu elogios e nota máxima. Esse silêncio que a solidão proporciona é, no entanto, cada vez mais ocupado pelo ciberespaço, que permeia, fluidicamente, nosso cotidiano. O que é temeroso para a maioria, mas não para nós, pesquisadores dedicados a desvendar as tramas das redes e seu entorno. Somos obrigados, portanto, a conviver nelas, continuamente, a analisá-las com distanciamento, mas com conhecimento de quem vivencia extenuantemente essa imersão.

Antes de viajar, essa imersão não era possível para mim no nível que eu deveria e gostaria de experimentar; afinal, conectar-se no Brasil ainda está abaixo de qualquer expectativa. Já Paris, que me recebeu desta vez, tão gélida, com seus metrôs frios, suas ruas glaciais e sua beleza de inverno intocável, compensou-me com um grau de conexão inacreditável. As coisas funcionam. Se a empresa de telefonia não te der um bom sinal, pas de problème, você pode contar ainda com as numerosas redes de Wi-Fi (pronuncia-se uí-fí. Se lançar mão da pronúncia americana, eles retornarão um redondo e desdenhoso quoi/comment?, mesmo que saibam do que se trata). Na maioria dos bistrôs e cafés são gratuitas e, nas ruas, pagas. Basta ter uma conta em uma operadora para acessar. Barato e fácil. Nas universidades não é diferente. Há as redes abertas, mas também as fechadas: por meio de uma senha, obtida no ato da matrícula, você terá acesso a uma excelente conexão.

Mas a questão não para só aí, na facilidade e na velocidade (apesar de não ser nenhuma Coréia do Sul, em termos de rapidez, a França chega a 604 Kbps, enquanto, no Brasil, são alcançados míseros 105 Kbps). Aqui, o mundo é digital mesmo, as empresas e os serviços são digitais e as universidades, é claro, também. Há uma série de sistemas e plataformas prontas para levá-lo onde desejar. É só googar. Em virtude disso tudo, a maneira de interação com o mundo, os hábitos parecem estar perfeitamente ligados ao ciberespaço e seus espaços de imersão: os dispositivos móveis. Para tudo, absolutamente tudo, consulta-se a internet. Muitas vezes um smartphone é puxado do bolso, com a mesma facilidade de quem bebe um copo de água.

É desaconselhável sair às ruas sem um smartphone, se você for um estudante estrangeiro. Os smartphones são as bússolas. Mas, se em todo caso, isso acontecer, e você estiver perdido sem entender porque o terceiro arrondissement é do lado do décimo primeiro, basta pedir ajuda na rua. Alguém vai parar, sacar um iPhone (o parisiense é cult, logo, usa iPhone) do bolso e dizer a você onde está, que direção deve tomar, que meio de transporte escolher e, ainda, se há uma passeata ou um engarrafamento no meio do seu trajeto.

Estudar na Europa é um choque cultural muito grande — ninguém vai cobrá-lo, acredite, mas estará de olho; e, se for o caso, negar créditos cumpridos ou até cancelar sua inscrição em um seminário. Há uma necessidade de controle muito evidente, mas tal controle, enfatizo, não é da natureza do acompanhamento. O estudante brasileiro do ensino superior está acostumado a ser bajulado, ter seus trabalhos cobrados, como se ainda estivesse no ensino médio. Aqui, ele é mais um no meio de milhões, por isso, nenhum professor haverá de segurar sua mão ou tomar nota das suas dificuldades domésticas. Cada aula é uma conferência que, sozinha, pode funcionar sem a outra. Por isso, perder tempo com problemas cotidianos é sempre um problema maior, uma vez que, graças ao individualismo metropolitano, ninguém se importará com você. Perdeu aula? Problema seu. E é nesses casos que a digitalização da cidade pode ajudar. A maioria das universidades tem sistemas on-line que fornecem inúmeras possibilidades, tais como recuperar algum conteúdo perdido ou encontrar atividades necessárias para a complementação da sua carga horária.

Como viram, assim como a cidade luz bouge, a internet também é movimentada por aqui. Por isso, termino meu post com um passo-a-passo digital para quem quer morar e estudar na cidade que, neste exato momento, congela — ainda que continue sendo, para mim, a mais bela e inspiradora do mundo.

PARIS, 1905 (MONTMARTRE)

PARIS, 1905 (MONTMARTRE)

Vamos às dicas:

É bom saber, primeiro, que Paris tem vários sites dedicados a estudantes. O mais importante e oficial deles é o Etudiantdeparis.

Onde morar:
Vir estudar no país e escolher morar nas vilas ou banlieue (subúrbio) é um tiro no pé. O lance é morar no centro, de preferência entre o 1º e 14º arrondissement. Há desde grandes apartamentos a estúdios; ou, ainda, apartamentos com moradores que alugam quartos (aqui, isso se chama collocation). O site de aluguel mais conhecido é o Seloger. Já para quem quer só um quartinho (ou puxadinho) em Paris, há o Appartager. São os melhores, mas há muitos outros. E você encontra de tudo, desde um quarto-sala-banheiro sem paredes até charmosíssimos apartamentos hausmanianos, com proprietários às vezes não tão charmosos…

Móveis:
Se alugou um imóvel “vide” (sem mobília), você pode encontrar a preços pequeninos todo tipo de coisa no Leboncoin (aqui, até livros você acha).

Transporte:
Ônibus, metrô, trem… Todos têm horários e trajetos bem explicados on-line. No Itineraire-Metro, você calcula o tempo de trajeto e descobre como fazê-lo.

Há também excelentes aplicativos. Eu uso o Paris-Ci para entender as linhas e o CityMap para acessar o mapa do metrô (o CityMap traz mapas de metrô do mundo todo). Os táxis, caríssimos, são um assunto à parte. Apesar do grande número de taxistas, é muito difícil parar um táxi na rua.

Ou você acha um ponto, geralmente vazio (e inseguro), ou você faz como todo parisiense: entra no site do G7 ou do LesTaxis Bleus.

Escrever:
Precisando de uma revisão no seu francês escrito? O Lebonpatron te corrige, embora didaticamente, pois sugere opções e correções. Você, entretanto, é quem altera o corpo do texto de acordo com sua compreensão.

Comer:
Vida de estudante não tem todo esse glamour, não. A maioria come congelados entre as aulas. Apesar de não serem tão caros, os cafés estão fora da rota dos estudantes franceses. Quem se dá esse luxo são os estrangeiros — daí que, sendo você um estrangeiro, vai achar ótimas dicas no site oficial e também no melhor site extraoficial que conheço, o ConexaoParis.

Livros:
Para a compra, além da famosa loja on-line da FNAC, é possível obter livros em excelentes condições no Le bon coin. E tudo chega rapidinho. Dois dias e a encomenda está na sua porta. Se quiser consultar as bibliotecas digitais da França.

Se quiser consultar as bibliotecas digitais da França, veja o mapa.

E se quiser escolher a obra (física) antes de alugá-la, fácil. Todas as bibliotecas das universidades francesas, privadas ou públicas, têm um bom sistema digital. Às vezes, disponível para não estudantes.

Entretenimento:
E se depois de escrever seu artigo, pegar o metrô, comprar um congelado, limpar o apartamento e ler sua bibliografia obrigatória, você ainda tiver tempo e vontade de fazer uma atividade recreativa, a diversão também pode ser escolhida em uma centena de sites. Indico a vocês o meu “coup de coeur” — paixão preferida, ou amor à primeira vista — que é o site MylittleParis: cheio de segredinhos parisienses e dicas de todos os tipos. De quebra, tem uma Web-rádio que é um amor só: assim, você acessa boa música enquanto navega pela Paris digital.

Por Kalynka Cruz

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2 comentários sobre “Passaporte: direction Paris

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