Os Fenômenos do Remix e dos Internet Memes

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Segundo a Wikipedia, remix é uma versão alternativa, ou seja, uma nova gravação feita a partir de uma versão musical original. Algumas vezes, este termo também é utilizado para se referir a outras produções da cultura pop (cinema, literatura, etc.). “Remixar” envolve alterações e recombinações de textos culturais para a criação de algo novo. Por exemplo, um produtor de “remixes” musicais realiza uma mixagem de aúdio para compor uma nova versão da obra musical, adicionando ou subtraindo elementos, ou simplesmente mudando a equalização, os tempos, as vozes, os arranjos, as interações entre instrumentos — ou mesmo o ritmo dos componentes musicais. Os “remixes” musicais contemporâneos são realizados em “digital audio workstations”(DAW), que permitem aos produtores a reorganização das trilhas junto à inserção de diversos efeitos nas suas composições.

Colin Lankshear e Michele Knobel, na conferência “Digital Remix: The Art and Craft of Endless Hybridization” (Toronto, 2007), esclarecem que a prática do “remixing” tornou-se muito popular nos anos 1990 em diversos gêneros musicais, sobretudo no hip hop, house e jungle; mas também na música pop “mainstream”, no rhythm and blues e até no heavy metal.

De acordo com Darren Tofts e Christian McCrea, editores da revista digital The Fibre Culture Journal, a cultura do remix é construída por amadores e profissionais envolvidos nas áreas relacionadas à economia criativa, que resolvem recriar materiais reutilizando obras já prontas. Com a popularização das tecnologias digitais, processos de edição e composição de materiais audiovisuais tornaram-se mais acessíveis e promoveram uma distribuição facilitada destes mecanismos nas mãos dos consumidores.

Tofts e McCrea destacam que o humor e a paródia são frequentes nas práticas dos “remixers” e também ressaltam o quanto produções coletivas e colaborativas da nova comunidade descentralizada de consumidores tem produzido novos materiais culturais na Internet a partir de compartilhamentos, trocas, cópias, entre outras práticas, as quais têm propagado variados trabalhos relacionados à nova economia digital. Na leitura destes autores, o desejo de exceder o contribuinte prévio, ou seja, oferecer algo “além”, é o que motiva os criativos e persistentes “remixers” da cultura digital a permanecerem contribuindo com esta nova economia de um modo ingênuo e inventivo, jamais observado anteriormente.

Na esteira do fenômeno pop do remix, surgem os Internet Memes, que tem se espalhado velozmente na Internet. A Wikipedia afirma que o termo Meme foi cunhado pelo biólogo evolucionista Richard Dawkins, em O Gene Egoísta (1976). E também esclarece que Meme é  “uma ideia, comportamento ou estilo que se espalha de pessoa para pessoa dentro de uma cultura.” Logo, um Meme atua como uma unidade de transporte de práticas, ideias ou símbolos culturais, que pode ser retransmitida através da escrita, fala, gestos, rituais ou outros fenômenos imitáveis. Deste modo, os Memes têm o poder de se autorreplicar e se transformar, funcionando metaforicamente como princípios evolutivos que impulsionam a disseminação de ideias e fenômenos culturais, ao serem repassados  e compartilhados de modo mimético pela Internet.

Ainda referenciando a Wikipedia, o termo “mimeses” vem do Grego antigo e relaciona-a com: imitação, representação, similaridade nonsense e ato de expressão. Nesse contexto, apresenta os dois lados da moeda: por um lado, a Internet como mídia é extremamente acessível e propaga tudo o que for comunicado de modo instantâneo; por outro, como recurso produtivo, oferece referências audiovisuais diversas, que atravessam diferentes culturas e momentos históricos. Talvez, por esses motivos, as transmissões dos Internet Memes vêm se alastrando exponencialmente nos ambientes interativos das redes sociais.

Vale ressaltar que os Internet Memes tem como principais características o poder de comunicarem uma mensagem, geralmente bem humorada, construída a partir de uma sátira de um fato, frequentemente relacionado às produções da cultura pop ou às últimas notícias midiático-culturais. Somente para dar um exemplo, podemos citar o caso de Nana Gouveia, celebridade brasileira, que poucos dias após o furacão Sandy ter passado em Nova York, declarou ao website Ego que adorava furacões; porém, só havia saído de casa para tirar algumas fotos após Sandy ter passado pela Big Apple, ao final de outubro de 2012. Nem precisamos imaginar porque as fotos de Nana inspiraram uma proliferação de Memes nas redes sociais e se tornaram alvo de muitas paródias.

Lankshear e Knobel (ibid) citam Lawrence Lessig (2005), que argumenta que o remix digital constitui uma forma de escrita contemporânea que está alcançando a dimensão de uma prática massiva cotidiana. De acordo com Lessig, a própria história nos mostra que a prática do remix não é característica nem específica da era digital, porque sempre fez parte do desenvolvimento cultural de qualquer sociedade. Na visão destes autores, a partir de uma perspectiva mais ampla, o remix é uma condição geral das culturas: “no remix, no culture.” Segundo eles, pode-se remixar a linguagem e os significados sempre que uma ideia, palavra ou artefato é integrado ao que estamos dizendo ou fazendo. Isto inclui mixagens de imagens, textos, sons e animações digitais.

Lankshear e Knobel também destacam que Lessig defende que os jovens tem utilizando a linguagem do remix em escala massiva e isto tem se tornado central em suas práticas de produção de sentido e expressão de ideias. Na opinião de Lessig, variadas práticas de remix digital constituem modos muito mais interessantes de “escrita” para os jovens. Na longa lista de práticas que incluem remixes, apresentada por Lankshear e Knobel, constam: imagens trabalhadas via Photoshop, remixes de vídeos, músicas, animações, programas e seriados de televisão, filmes, entre outros. Para eles, o que motiva os jovens a criarem remixes são o desejo de pura e simples diversão, como também, o desejo de expressarem sentimentos de afinidade, solidariedade ou, ainda, pontos de vista políticos.

Os Internet Memes, portanto, assemelham-se a obras de autores desconhecidos que atravessam culturas, países ou até o próprio tempo sem jamais revelar quem são seus criadores. Sabe-se, contudo, que diferente dos bordões humorísticos e dos ditos populares, os Memes agora partem dos internautas em direção às reproduções midiáticas (seja na Internet ou nas mídias de massa), percorrendo o caminho inverso das mimeses típicas dos sistemas de broadcasting, nas quais podíamos observar criações originais de paródias, gestos ou frases célebres como produziram Chico Anísio, Jô Soares, Renato Aragão e outros comediantes ao longo das últimas décadas. Tudo isso caía rapidamente na boca do povo e se propagava país afora.  Outra distinta diferença é a grande velocidade com que a propagação online acontece, já que as redes sociais são constituídas por pontos infinitamente conectáveis entre si. Sempre abordando temas contemporâneos e relevantes, atualmente os Internet Memes surgem em ondas, espalham-se rapidamente e evanescem com igual velocidade. Mas, atenção: afinal, um Meme nunca morre! Uma vez na rede, sempre na rede!

Finalmente, gostaríamos de esclarecer que Lawrence Lessig é professor de direito na Harvard Law School e autor de  diversos livros — entre eles “Remix: Making Art and Commerce Thrive in the Hybrid Economy”. Seu trabalho relaciona-se com direitos autorais e propriedade intelectual no cenário da cultura digital e das economias híbridas e compartilhadas. Para saber mais sobre Lessig, consulte: http://www.lessig.org.

Para encerrar o nosso post, segue uma galeria de Internet Memes, extraídos de fontes diversas, especialmente selecionados para os leitores do Sociotramas:

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Por Maria Collier de Mendonça e Eduardo D’ávila Faria

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2 comentários sobre “Os Fenômenos do Remix e dos Internet Memes

  1. João Feitosa disse:

    Acho que li este artigo sobre memes na abciber! Apesar do termo meme ter sido popularizado pelo Dawkins, a noção de meme que ele trata não condiz totalmente com o “internet meme”. Além disso é interessante ressaltar que os memes contêm em si a ideia do remix, que os difere por exemplo do viral!

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