Funeral para um amigo: a morte do msn

Nicks coloridos estouravam, freneticamente, na tela do computador. Respirei fundo e arrisquei um oi, meio amarelo, solto no ar. De repente, surgem na sala anna21 e azuldacor domar (ou qualquer coisa por aí…), uma onda de respostas, oi, vamos tc? Vc eh de onde? Também gosta de Legião Urbana? Foi assim que estreei no maravilhoso mundo do mIRC, um cliente do Internet Relay Chat. Ou melhor dizendo, no maravilhoso mundo da comunicação sincrônica. Como imaginar estabelecer uma conversa à distância — em tempo realíssimo — sem um aparelho de telefone?

Essa era uma experiência muito distante, mas promissora, do que veríamos no futuro com a chegada dos verdadeiros comunicadores peertopeer. Enquanto a vida no mIRC rolava solta, na Web 2.0, nos  blogs e nas redes de relacionamento, esse conceito de comunicação sincrônica era ensaiado de diversas formas. Quem não lembra do mural do Orkut? Apesar do conceito ser o mesmo dos fóruns — mensagens assincrônicas —, os usuários dessa rede passaram a usar o mural sincronicamente, batendo papos públicos, mais tarde privatizados; e, tempos depois, “realocados” com a chegada do Gtalk. Antes dessas mudanças, entretanto, fizeram a alegria de muitos dos interessados na vida alheia… Ademais, a boa apropriação desse conceito por outra rede seria definitiva para o fim de uma era, como veremos depois.

O mIRC e seus similares reinaram soberanos durante muitos anos antes da chegada dos softwares de instant messaging como ICQ, MSN, Gtalk, Yahoo Messenger, Skype e tantos outros! Ainda dá sinal de vida até hoje, como um velho amigo que só encontramos raramente. Talvez, se um dia acabar de vez, não haja tanta comoção. No máximo, boas lembranças, homenagens e um adeus conformado (e se você é um dos poucos que sente falta, passe por aqui e leve o vovô de volta para sua casa).

Depois vieram os instant messengers, ouprogramas de instant messaging. O primeiro deles foi o ICQ, que também teve vida longa e ainda anda vivo lá pela Cochinchina, ops, desculpe, lá pela Rússia. O ICQ (sigla referente à expressão americana I Seek You) nasceu em 1996 e teve o auge da sua popularidade em 1998, quando a America Online (AOL) comprou-o. Mas logo perdeu espaço para o próprio comunicador da casa, o AIM (AOL Instant Messaging) e para o jovem e poderoso Messenger (MSN). Em 2010, pasmem, foi comprado pela empresa russa Mail.ru, ganhou uma nova versão, nova cara, melhorou sua usabilidade, possibilidade de convergência com as redes e, além de tudo, ganhou aplicativos para plataformas móveis como iOS (iPhone, iPad e iPod), Android e Windows Mobile. Depois disso, virou um sucesso… Como eu disse, lá na Rússia. Mas nada comparado ao seu primo mais famoso, que esteve nas “paradas de sucesso” muitos anos, sem perder a pose: o poderoso MSN.

O MSN foi criado em 1999 pela Microsoft Corporation. Mais tarde, fundiu-se ao Windows Messenger, ganhando nova roupagem e nome pomposo: Windows Live Messenger. Para nós, o eterno MSN. Além da integração com o Hotmail (na época, jamais imaginávamos que este seria dizimado pelo Gmail), o MSN trazia uma  interface muito mais amigável, com possibilidade de bate-papos, troca de conteúdo e, pouco tempo depois, bate-papos com voz e vídeos. Também ficou popular pelos emoticons e até mesmo pelos malditos, ridículos e engraçados gifs animados (os precursores dos memes nas redes). Elementos que garantiram, durante longo período, o sucesso dessa ferramenta peer-to-peer.

O MSN sofreu muitos ataques e surgiram muitos concorrentes. Um deles foi o Gtalk. Ora, se o Gmail era um sucesso, porque o Gtalk não seria? Criado em 2005 pela simpática e poderosa Google, o Gtalk trazia uma interface simples, leve (sua versão de lançamento pesava menos de 1 MB) e permitia bate-papos tradicionais e por Voip. No ano de 2007, ganhou vida própria e independência do Gmail — mas ainda não foi capaz de desbancar o poderoso MSN. Além disso, rapidamente, foi passado para trás pelo comunicador do Facebook. Mesmo que tenha se integrado antes ao Orkut, como competir com o crescimento da popularidade do bate-papo do Facebook? Na verdade, o Gtalk estava mergulhado na guerra Google X Facebook e, ao que parece, submergiu.

Legenda: Imagem original do blog www.qualedigital.com

Quando a rede de relacionamento mais popular do mundo lançou seu serviço de bate-papo online, todos os outros deram indícios de estar fadados ao naufrágio. Vale lembrar que o Gtalk tinha se integrado ao Orkut, mas em um momento em que esta rede já estava quase morta…

Para que mesmo recorrer a um comunicador externo, se já estávamos todos ali, no mundo digital? Para quê sair e procurar amigos para conversar, se dentro de casa estava a maioria dos amigos que me interessavam? Além disso, houve uma estratégia ainda mais poderosa de fortalecimento dessa ferramenta de bate-papo do Facebook: sua união com profissionalissimo Skype. O Skype surgiu em 2003, mesmo ano do lançamento de sua primeira versão. Depois, foi adquirido pela eBay, até ser arrebatado pela Microsoft, custando a bagatela de 8,5 bilhões de dólares!!!

Esse sim foi o movimento mortal para o superpoderoso MSN. Sim, um filicídio! A própria Microsoft decretou em 6 de novembro de 2012, a descontinuidade do MSN, que será, segundo a empresa, substituído em definitivo pelo Skype.

Uma comoção nas redes: reclamações, indignação, o anúncio do fim de uma era… O primeiro sinal de que uma geração inteira envelheceu…

Viria, daí, essa negação coletiva da morte do MSN? Não sei… Ainda estou comovida. Tão comovida como só fiquei ao ler “A Morte do Super-Homem”, em 1993.

Um minuto de silêncio, por favor: o MSN morreu.

Por Kalynka Cruz

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5 comentários sobre “Funeral para um amigo: a morte do msn

  1. Renato Rebelo Barreto disse:

    Muito, muito bom o artigo! – e bem escrito. Reconheço que senti saudade de todas essas fases. Apesar de minha pouca idade (22 anos), uso o computador (com internet, discadíssima) desde 96, 97 e comecei com o ICQ – que tinha uns números cabulosos como endereço pessoal -, posteriormente o mIRC revolucionou minha vida, e por fim, esses outros, sim, da minha real geração, modificaram e foram aceitos por todos que se deslumbravam com o avanço intermitente da internet. Entretanto, somente o MSN me proporcionou o real prazer de conversar com excelente qualidade: voz e vídeo… e vício.
    Por fim, o Facebook destronou todos, e a única certeza que temos é que ele também será destronado um dia. Quem viver, verá.
    Adeus, eme-esse-ene.

      • Joana Calado disse:

        Hahaha!Muito bom,Renata! Adorei seu artigo, simples e bem escrito. Parabéns pelo resumão de uma era virtual-real saudosa.

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