Redes Transdiciplinares de Colaboração

No momento em que escrevo este post, encontro-me na Nuvem: estação rural de arte e tecnologia, um hacklab rural, em Visconde de Mauá, RJ.  “Nuvem” é uma iniciativa para condensar desejos, pessoas, ações e pensamentos, destinados a abrigar insurgências provenientes de diversas áreas de interesse.”.

Participo como colaboradora do Interactivos?’12 Nuvem — Autonomias: ciências da roça. O Interactivos é um programa do Medialab Prado cuja metodologia será replicada em Mauá. O programa é definido como uma plataforma de pesquisa e desenvolvimento do uso criativo e educacional de tecnologia. O principal objetivo é o aprimoramento no uso de ferramentas de eletrônica e softwares por artistas, designers e educadores, contribuindo, desta forma, para o desenvolvimento local de produtores culturais neste campo.  Durante quinze dias, proponentes, colaboradores e tutores trabalharam no desenvolvimento de projetos colaborativos e transdisciplinares, em uma oficina na interseção da cultura hacker e do ambiente rural, com foco no desenvolvimento de projetos que propiciem um vida mais autônoma.

Novos ambientes de produção de conhecimento e aprendizagem que se multiplicam a cada dia, entre os quais encontramos os Medialabs — laboratórios de experimentação em novas mídias — sejam no formato de instituições culturais (Medialab Prado, LabMIS-SP) e científicas (MIT) ou uma mistura das duas, bem como na forma de coletivos e redes (LabOCa, MetaReciclagem, Garoa Hacker Clube), pontos de cultura, etc. “Laboratórios concebidos menos como espaços físicos e mais como uma atitude coletiva, fundada na disposição de exercitar novos modos de relacionar pessoas, informação, sociedade e o planeta. Labs que se vaporizam na dinâmica dos dispositivos móveis e das conexões sem fio, na diversidade de formatos, finalidades e concepções” (FONSECA, F., 2012).

Mapa interativo on-line aberto para coleta colaborativa de dados sobre a estrutura, tipo de atividades e interconexão entre os diversos laboratórios de mídia no mundo.

Laboratórios que têm sua origem tanto em iniciativas públicas e privadas vinculadas a instituições acadêmicas e/ou culturais, quanto em iniciativas da sociedade civil na forma de laboratórios autônomos, coletivos, hacker clubes e laboratórios diversos. Em sua grande maioria, esses laboratórios atuam na interface arte, ciência, tecnologia e sociedade, voltados para ações de apropriação das “novas mídias”, ciberativismo, mídia, arte e arte eletrônica — ou outras denominações que envolvam arte e tecnologia na contemporaneidade. São de natureza, finalidades e formatos diversos, mas mantêm essa denominação comum, seja na nomenclatura ou na descrição, de laboratórios. Tema ou conceito que tem sua visibilidade e representação associada às ciências ditas duras ou naturais, no contexto dos laboratórios experimentais (medialabs), essas bordas ficam mais difusas na articulação de uma mistura que coloca o rigor da pesquisa científica lado a lado com o experimental da arte e a liberdade de criação. O resultado ganha corpo e visibilidade no remix e a materialidade da digitalização, na ubiquidade da difusão da informação e na constituição de redes transdisciplinares de colaboração. Mistura de pesquisa, oficina, equipamentos, tecnologia de ponta (high-tech) e das mais simples do tipo “faça você mesmo” (low-tech), cultura da convergência, colaboração, articulação em rede, criação e inovação.

Os laboratórios de hoje são menos espaços que têm sua centralidade na oferta de estrutura e acesso às “novas mídias” e conexão (hoje disseminadas nos formatos e possibilidades de laboratórios nômades configurados em laptops e conexão móvel, da computação penetrante e ubíqua) e mais espaços que atuam catalisando encontros, reflexões e ações que dinamizam “redes de articulação, produção e distribuição de cultura digital” (FONSECA, F., 2010). São também laboratórios experimentais dedicados às pesquisas colaborativas transdisciplinares, cujas finalidades ultrapassam os limites das disciplinas de um campo específico — o que exige formas híbridas ainda pouco estabilizadas ou definidas de metodologias e status epistêmico e ontológico do conhecimento produzido. O que são, exatamente? Que novo conhecimento eles produzem ou possibilitam? O que podemos aprender com as experiências transdisciplinares, cooperativas e em rede que estão sendo produzidas e como podem nos ajudar a delinear um futuro e a pensar os rumos da des-ordem cultural que atravessamos?

Edward Shanken (2010, p.7) finaliza o texto A história e futuro dos labs: pesquisa colaborativa na interseção entre arte, ciência e tecnologia sinalizando que o sucesso dessa nova onda de laboratórios experimentais será mensurado por uma “redundante” repercussão futura, isto é, um futuro que ateste como as mudanças correntes de concepção e construção de conhecimento e da sociedade, como um critério evolutivo, adquiriram reconhecimento científico e valor cultural e uma distribuição ubíqua. Futuro indeterminado que ganha corpo enquanto uma “tendencialidade” para o crescimento, seguindo o princípio do pragmatismo peirceano de que, “no processo de evolução, aquilo que existe vai, mais e mais, dando corpo a certas classes de ideais que, no curso do desenvolvimento, se mostram razoáveis” (SANTAELLA, 1994, p. 137).

Por Izabel Goudart

Anúncios

2 comentários sobre “Redes Transdiciplinares de Colaboração

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s