Web, sem números, pontos e zero, por favor.

Neste meu segundo artigo no Sociotramas, resolvi escrever uma invectiva (um rant) contra a expressão Web 2.0. Motiva-me a mais absoluta e imediata implicância. Presente desde a primeira vez que li o termo, crescente na medida do aumento de sua utilização — particularmente, quanto mais adentra o discurso acadêmico. É um não conceito, vazio em essência e indefinido em limites, errado no método e na postulação geral em que tenta se sustentar. A internet foi social desde sua infância; a web, desde seu primeiro suspiro.

Comecemos pelo começo, com o criador da web, assim sem número, ponto ou zero, como foi inventada: Tim Berners-Lee. Em 2006, durante uma entrevista para o IBM DeveloperWorks, o cientista britânico disse com todas as letras que Web 2.0 não passa de um jargão, algo que ninguém é capaz de definir, e demonstra não haver qualquer mudança tecnológica para sustentar o apêndice “2.0”.

Segundo o verbete da Wikipedia, a expressão Web 2.0 foi cunhada em 1999. Mas não há dúvida de que o termo foi definitivamente propagado pelo Web 2.0 Summit, badalado evento promovido pela O’Reilly Media desde 2004. Também não há dúvida que sua criação envolveu uma jogada de marketing: basta ler o artigo de Tim O’Reilly, “What is Web 2.0”. Seus primeiros parágrafos deixam absolutamente clara a intenção de demonstrar que, após o estouro da bolha em 2000, a web não estava morta.

O artigo segue por apresentar uma lista dos elementos que exemplificavam a nova web. Há de tudo. O que, adicionado à inflação seguinte de tudo o mais que vem sendo adicionado à “lista”, dá pleno embasamento ao segundo ponto da crítica: o vazio em essência do jargão dá margem a um acúmulo desconexo de novidades, um verdadeiro vale-tudo. A caracterização da Web 2.0 feita pelo artigo não foge da mazela, pois junta as ideias de web como plataforma, de alavanca para inteligência coletiva, de movimento por dados livres, do fim dos ciclos de programação, de métodos de programação “leves”, de software multiplataforma, além de interfaces de usuário mais ricas. Ou seja, um verdadeiro saco de gatos.

Antes de avançar em minha arenga, entretanto, cabe registrar minha discordância com uma crítica à Web 2.0 que se tornou razoavelmente popular. Trata-se da contenda de Nicholas Carr de que a web, seus mecanismos de buscas, e redes sociais estejam nos deixando menos inteligentes. Embora em seu mais famoso artigo, “Is Google making us stupid?”, Carr não faça referência à Web 2.0, ele é acompanhado por autores como Andrew Keen e Jaron Lanier, na contestação do valor da explosão de conteúdo gerado por usuários. Percebem um esfacelamento da cultura na fragmentação da atenção, excesso de informação e superficialidade das trocas.

Uma crítica a esta crítica merece outro post; resumo-me, por agora, a dizer que sou otimista. Aprenderemos a utilizar nossas novas tecnologias da inteligência do mesmo modo como fizemos com tantas que as sucederam como a escrita, a imprensa, a fotografia… Mas, antes de mais nada, discordo da crítica de Carr, Keen e Lanier porque ela aceita a consistência teórica de algo que merece ser chamado de Web 2.0 — e eu, não.

Voltando à minha crítica, avanço do estilo “catch all” que não disfarça o vazio do conceito para o problema da metáfora implicada no apêndice “2.0”. A ideia do versionamento segue a duas lógicas do desenvolvimento de software: existência de uma linha evolutiva e demarcação de mudanças significativas dentro de uma escala. Os dígitos antes do ponto e depois do ponto podem ter diferentes formatos e codificações, mas uma mudança de versão (o número antes do ponto) sempre indica uma quebra de paradigma: um novo patamar do software, que é incompatível com e degrada os anteriores.

Não houve nada no “software da web” que possa merecer a nova versão, nos garante seu criador na entrevista já citada. Mas a ampla utilização do conceito sugere uma Web 2.0 entendida como fenômeno social. Eis o aí problema: a sociedade não se comporta no ritmo do desenvolvimento de software, não existem movimentos que incompatibilizam os formatos anteriores de relacionamento. Não se aplica uma lógica de substituição, de “upgrade”. Nem se deve fundar interpretações de fenômenos sociais em linhas evolutivas. A metáfora do versionamento não descreve bem mudanças em fenômenos sociais, pois estas ocorrem de maneira cumulativa ao longo de um processo de mudança, não pelo corte discreto de uma nova versão.

Vamos agora ao xis da minha implicância: a web não se tornou mais social nos últimos 10 anos, ela “apenas” multiplicou em tamanho inúmeras vezes. Com adesão de um número cada vez maior de pessoas (o Facebook acaba de alcançar a marca de 1 bilhão de usuários), o fenômeno se tornou muito mais relevante.

Este Digital Equipment Corporation KA10 (PDP-10) enviou o primeiro email em 1971.

O potencial de socialização da internet pré-data a criação da Web em algumas décadas: já no início na década de 70 foi enviado o primeiro e-mail. A função do e-mail é o diálogo. Ele continua sendo a ferramenta mais utilizada da Internet, seu uso novamente em expansão por conta dos smartphones. Além disto, a primeira lista de e-mails também data do início da década de 70, SF-Lovers (SF de science fiction). Estas listas criam a primeira mídia de interação muitos-muitos assíncrona eficiente em larga escala e com memória permanente. É outro mecanismo de interatividade digital utilizado em larga escala até hoje: método fundamental da organização das comunidades de desenvolvimento de software livre; e continua pujante com a ajuda de seus primos corporativos Google Groups, Yahoo!Groups, ou entre nós, Grupos.com.br.

Pior, com a popularização, o potencial de socialização diminui em qualidade, empobreceu. É claro que, hoje, grupos no Facebook são muito mais visíveis do que os velhos grupos da Usenet. Mas nestes é muito mais frequente encontrar verdadeiras comunidades virtuais. Grupos com normas de conduta claras seguidas ao longo de anos de história comum e objetivos coletivos bem estabelecidos. Nossas mídias sociais de massa são palco de trocas menos densas ou complexas.

O processo de popularização da web levou o fenômeno social que a acompanha a atingir massa crítica. Isto é obviamente relevante, porém, não caracteriza um novo estágio de desenvolvimento, uma ruptura, revolução — ou menos ainda, se quiserem, uma nova versão.

O único universo onde ocorreu uma mudança marcante nos últimos anos está no uso corporativo da web como instrumento de marketing. Aí sim, é possível demonstrar um verdadeiro salto da adesão inicial das empresas marcada por páginas estáticas, verdadeiros folhetos eletrônicos, para sua participação ativa no diálogo com consumidores em diferentes canais da Web.

Mas isto não é suficiente para sustentar a ideia de uma Web 2.0 no discurso acadêmico sobre fenômenos sociais e da comunicação. Pode ser válido em estudos de marketing, mas não pode pautar nosso entendimento da evolução do meio sociotécnico criado pela internet. Prejudica porque mascara o ritmo real desenvolvimento do fenômeno em um momento em que suas disponibilidades (affordances) estão em jogo. Agora, é importante perceber o que perdemos e o que ganhamos no caminho entre as comunidades virtuais dos idos das BBS e a hordas de seguidores em mobilizações de massa via Twitter. Esta é uma preocupação muito mais produtiva do que o debate sobre uma possível Web 3.0. Um debate que cria pseudo-oposições tecnológicas e imagina impactos sociais a priori.

Por Hermano Cintra

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6 comentários sobre “Web, sem números, pontos e zero, por favor.

  1. Marcelo Salgado disse:

    Hermano, gostei muito de seu artigo! Também não gosto do uso acadêmico indiscriminado de expressões “modinha” que não tenham real relevância e substância e/ou expressões mal empregadas — em contexto acadêmico, especialmente.

    Acredito que as versões seguintes (2.0, etc.) de um software e, por derivação, de uma noção ou conceito social/humano, não são NECESSARIAMENTE incompatíveis com as anteriores, nem necessariamente degradam/acabam com a relevância das versões anteriores. Isso vale muitíssimo para um monte de softwares, como o próprio Windows e drivers de placa de vídeo (muitos usam versões anteriores, por serem melhores para seu computador/configuração ou para o jogo ou programa que estão usando).

    O conhecimento das versões anteriores de um software é comumente (arriscaria dizer “quase sempre”) utilizado nas versões seguintes (ou seja, é cumulativo, não se perde). Acho que o mesmo se aplicaria a versões seguintes de fenômenos sociais/humanos: o que veio antes não necessariamente vai 100% para o lixo, não se perde todo, forçosamente. Pelo contrário, acredito que essas versões anteriores costumam mesmo ser a base a partir da qual a versão seguinte parte — seja um software ou de um fenômeno social/humano.

    A partir daí, concordo contigo que não houve, aparentemente, mudança essencial tecnológica que justifique a expressão Web 2.0. Claro, se considerarmos fenômenos sociais e humanos 2.0 e etc., já temos outro contexto e outras variáveis a serem consideradas (não há “mudança tecnológica” que possa ser objetivamente avaliada, nesse caso; teríamos que considerar outras mudanças, outras condições).

    Adorei seu artigo. Acho que precisamos de mais críticas ousadas e/ou, no mínimo, mais atenção crítica a essas “expressões da moda”. Parabéns e abraço!

    • Hermano Cintra disse:

      Marcelo,

      em primeiro lugar repito o que já te disse, fiquei muito feliz que tenha gostado!

      Quanto as versões de software, claro que o conhecimento de uma versão anterior é utilizado nas seguintes. Meu ponto é que via de regra arquivos criados na versão x+1 de um software não rodam em versões anteriores. Como um arquivo criado pela versão 2008 do Word não roda na versão 2004, mudaram até as extensões de arquivo de “.doc” para “.docx”. A degradação está nisto, a versão anterior deixa de ser capaz. Perde sua função plena, pois o novo a superou. A versão nova obviamente engloba a anterior, já que novamente via de regra o arquivo gerado pela versão anterior é acolhido pela mais nova.

      Abraços,

      Hermano

      • Marcelo Salgado disse:

        Oi, Hermano.
        Concordo com sua resposta plenamente. Exatamente meio que contestei a questão da “cumulatividade” pois, em seu texto, você parece associá-la apenas aos fenômenos sociais e dá um tom de quebra completa entre versões distintas de software.

        Juntando sua resposta às minhas considerações, digo: sim, ambos fenômenos tecnológicos e sociais têm o aspecto da cumulatividade (de experiências, informações); entretanto, no caso dos tecnológicos, a COMPATIBILIDADE só acontece do Novo aceitar o Velho, e não (tipicamente) do Velho aceitar o Novo. Ou como você disse na resposta, “a versão nova engloba a anterior”. MAS, no caso de fenômenos sociais, a compatibilidade de momentos (ou “versões”) velhos e novos das mesmas experiências parece plena: idas e vindas sem problemas. Está aí uma diferença a partir de uma semelhança entre dois tipos de fenômenos que se entrelaçam.

        Baita assunto interessante… Dá pano pra manga! :- D
        Abraço!

      • Marcelo Salgado disse:

        Eita, espera a Kalynka saber. Risos…
        De minha parte, não vejo nada de errado em versionar fenômenos sociais. Mas só o faria (como fiz em meu último post aqui no blog) para provocar reflexões e em um contexto que acredito ser mais apropriado para divagações — caso do blog, em comparação a um artigo acadêmico. Mesmo assim, se o pesquisador for bastante claro em declarar (em certo trecho de um artigo, por exemplo) que está apenas colocando algumas ideias mais provocativas sem propósito conceitual mais profundo, ainda seria possível, certamente, argumentar em favor do versionamento e fazer disso um ponto interessante e enriquecedor de um texto.
        Abraços! :- D

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