Por que pensar “tele-existência” nas redes sociais?

Robô de Tele-existência - Telesar VO termo “tele-existência” não é muito popular. Ao fazer uma busca no Google, inclusive em inglês, constata-se que são raros os trabalhos que se dedicam a pensá-lo. Proposto e patenteado por Tachi em 1980, o termo refere-se às tecnologias que tornam possível ao ser humano ter a sensação, em tempo real, de estar em outro lugar. O “efeito de existência” produzido por meio de avatar robótico ou virtual pode, segundo Tachi (2010), ser libertador das restrições de tempo e espaço, uma vez que permite que as pessoas “estejam efetivamente presentes em lugares diferentes daquele em que realmente estão, sejam eles reais, sintetizados por computador ou uma combinação de ambos”. Embora o termo possa ser utilizado para expressar a experiência imersiva em metaversos, mundos virtuais ou ambientes digitais, é comumente relacionado a uma espécie de concretude (luvas, óculos, capacetes, vestimentas ou corpos maquínicos) que permite a atuação remota sobre um ambiente físico (real) ao mesmo tempo em que extrai dele informações que são convertidas em imagens, sons e sensações táteis.

O robô de tele-existência Telesar V, desenvolvido para operar em ambientes hostis como a radioativa Fukushima, é o exemplo máximo do fluxo bidirecional de informações: reproduz os movimentos do tele-operador ao passo que lhe transmite o que “vê”, “ouve” e “sente”. Ironicamente, o processo só se realiza quando a supermáquina abriga a remota subjetividade-operante e o super-humano reveste-se de maquinismos de última geração que sobreescrevem sua realidade com dados da realidade distante. Em suma: a prometida ou desejada libertação possui novas outras correntes, hi-techs.

Tele-existência evoca um conjunto de problemáticas que versam sobre ubiquidade, telepresença, ecossistemas, ambientes e realidades virtuais, sistemas colaborativos, realidade aumentada e mista, inteligência artificial, interação homem-máquina, simulação em tempo real, computação vestível e “pervasiva”. As tensões que suscita são inerentes à categoria semântica do pós-humano – definição provavelmente transitória, embora útil na medida em que recoloca, sob diferentes perspectivas, a relação entre homem e técnica, arregimentando o debate sobre a crise do pensamento antropocêntrico e humanista, além de diluir dicotomias cada vez mais insustentáveis como natural e artificial, natureza e cultura, material e imaterial, orgânico e inorgânico, real e virtual, sujeito e objeto (DI FELICE; PIREDDU, 2010, p. 29-30). Tele-existência também está na pauta do fenômeno “glocal” e é compreendida como um esforço deliberado de “fazer-se existir à distância” por meio das tecnologias do tempo real (TRIVINHO, 2007).

A emergência das redes sociais digitais como âmbito privilegiado de relacionamento e projeção subjetiva, apoiada pela popularização dos dispositivos móveis de acesso, requer a compreensão da tele-existência como fenômeno comunicacional extremo e complexo, narrativa cotidiana que conjumina possibilidades de ser e não-ser na superfície agônica do efêmero, compulsão inseminadora, retroalimentadora e resultante do imaginário tecnológico cibercultural vigente. Trata-se, sem dúvida, de um desafio, pois no lugar do avatar robótico das experiências de Tachi está uma espécie de organicidade sígnica, espectral, arranjamento dinâmico de dados que delineia uma intermitente identidade-perfil (DAL BELLO, 2009).

Além disso, diferentemente do “espetaculoso” tele-operador do robô Telesar V, com todos os seus apetrechos maquínicos, o usuário comum das redes sociais incorporou os gadgets (cada vez menores, mais finos e mais leves) e acede de bom grado, com docilidade e naturalidade, ao imperativo estado always on. A produção ininterrupta de informações sobre si, pautadas pelo ritmo do gerúndio – No que você está pensando? (Facebook); O que está acontecendo? (Twitter) –, parece atender à necessidade de legitimar recorrentemente a existência nos tempos e espaços ciberculturais de alta visibilidade. Sob o assédio da interatividade que requer conexão contínua, devoção desdobrada, devolutiva veloz e disponibilidade “glocal”, a indexação da existência em tempo real tem um caráter devorador, já que invisibilidade corresponde à inexistência e toda manifestação nas redes torna-se rapidamente obsoleta.

Por essa razão, o termo “tele-existência” merece ser investigado também no contexto ciberespacial das redes sociais, já que tais plataformas, populares e populosas, são tão ou mais inóspitas que Fukushima, embora o aspecto lúdico do engajamento coletivo não permita que se perceba, com clareza, a tônica agônica.

Referências:

DAL BELLO, Cíntia. Cibercultura e subjetividade: uma investigação sobre a identidade em plataformas virtuais de hiperespetacularização do eu, 2009. 130 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009(a). Disponível em:  http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/ arquivo.php? codArquivo=9410.

DI FELICE, Massimo. Estéticas pós-humanistas e formas atópicas do habitar. In: DI FELICE, Massimo; PIREDDU, Mario. (Orgs.). Pós-humanismo: as relações entre o humano e a técnica na época das redes. São Paulo: Disfusão, 2010.

TACHI, Susumu. Telexistence. London: World Scientific, 2010.

TRIVINHO, Eugênio. Cibercultura e existência em tempo real: contribuição para a crítica do modus operandi de reprodução cultural da civilização mediática avançada.  In: e-COMPÓS – Revista da COMPÓS – Associação Brasileira de Programas de Pós-Graduação em Comunicação, São Paulo, n. 9, ago. 2007(b). Disponível em: http://www.compos.org.br/data/biblioteca_173.pdf Acesso em: 25 jun. 2008.

Por Cíntia Dal Bello.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s