Quadrinhos nas Redes Sociais Digitais – Entrevista Joao Montanaro

Após o post “Web Semântica e as Redes Sociais Digitais”, as relações entre meio e mensagem começaram a causar certa irritação neste que vos escreve. Para esquecimento, o mesmo recorreu ao seu velho vício — o entretenimento — e foi em busca de quadrinhos na internet; porém, mal sabia que algo maior estava por vir.

O velho “Hagar the Horrible”, do nova-iorquino Dik Browne, foi pesquisado na web. Apesar do contexto ser antigo, os quadrinhos contam a história de um bárbaro brahmeiro na Idade Média as jokes fazem reflexão com o presente, mas a coleção do viking já recheia a estante — e a vontade pelo novo era irresistível, até que os motores de busca do Google levaram às tirinhas de João Montanaro.

Além do cartunista publicar suas tirinhas nos jornais Folha de S.Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil e nas revistas Mad e Recreio e ter prêmios na prateleira — constatando, assim, o valor da sua arte —, ele ainda é o autor do livro Cócegas no Raciocínio da editora Garimpo e possui um talento singular: tudo isso com apenas 15 anos. Mas o que mais chamou a atenção, fazendo voltar àquela irritação do meio e da mensagem, é à forma como o menino-prodígio tem facilidade em narrar histórias do gênero humor em tão poucos quadros — sobre assuntos como política, redes sociais, games e tecnologia. Convenhamos: não é nada fácil abrir a gargalhada nas outras pessoas.

Então, o objetivo da entrevista é um bate-papo descontraído com Montanaro; principalmente, sobre como é narrar nos quadrinhos e nas redes sociais digitais. Alerto que a entrevista foi realizada via e-mail. Vamos lá?

Thiago Mittermayer: Não poderia começar a entrevista sem perguntar sobre a sua formação. Você fez algum curso específico de desenho e quadrinhos? De onde vem este talento singular?  É genético, um dom? Quais outros cartunistas influenciam o seu trabalho?

João Montanaro: Não, nunca fiz curso. Me alertaram que cursos poderiam influenciar negativamente o meu estilo. Eu iria ficar apenas com o estilo do professor… Não sei se é dom, mas quando era menor, desenhar era a única coisa que eu queria e sabia fazer direito. Dos cartunistas, curto o Angeli, o Laerte, Arnaldo Branco, Jean Galvão, Benett, Liniers, Grampá etc…

TM: Como é o seu processo de criação? Quais são as etapas desde a ideia até a tirinha impressa no jornal ou no seu blog? Que materiais você utiliza? Em algumas fotos, percebi que elas são feitas “artesanalmente” pintadas e, quando vão para a mídia digital, não é perdida a qualidade estética da tirinha. Há alguma pós-produção digital?

JM: É basicamente ter uma ideia e desenhá-la. Gasto muito mais tempo tentando ter ideias do que desenhando, que é a parte mais fácil e prazerosa. Faço esboço, depois pinto com nanquim e aquarela. No computador, só arrumo algumas cores no Photoshop.

TM: Você acredita que suas tirinhas são engraçadas e fazem sucesso mais pelo aspecto visual particular, pelas narrativas de humor bem pensadas ou por ambas as razões? A velha discussão: Narrativa vs. Arte — o que é a mais importante?

JM: Com certeza a narrativa. Ideias vão ser sempre mais importantes que o modo como são contadas — tanto que grandes cartunistas brasileiros não sabiam desenhar direito, como o Henfil, Millôr, Furtuna, etc. Tento sempre colocar a ideia em primeiro lugar.

TM: Como é construir narrativas tão pequenas de humor em pequenos quadros? Quais são as dificuldades e facilidades? Qual estilo de humor é o seu preferido: a sátira, a paródia, o nonsense, o humor negro, entre outros — e por quê?

JM: Cara, a maior dificuldade é tentar dizer muito com muito pouco e também é a maior diversão! A facilidade eu não sei bem qual é… Considero a coisa toda bem difícil, tipo fazer sudoku. Eu gosto da primeira coisa que vier, se for bom, tá valendo.

TM: Na maioria dos seus trabalhos a mídia final é a impressa, mas você também disponibiliza suas tiras na Internet, em seu blog, Twitter, Facebook e até Tumblr. Você utiliza as redes sociais apenas como um meio de divulgação ou você acredita que elas também podem servir como meio de narração? O propósito é a mesmo no final das contas, ou seja, o importante é a piada, o conteúdo, independente do meio, suporte, por exemplo: jornal, redes sociais, revista ou livro?

JM: Uso tantos links mais para divulgação mesmo. O conteúdo que posto em todos é o mesmo o que muda é a plataforma e a maneira como me relaciono com os leitores. Curto o Facebook pois a coisa é muito mais dinâmica, mas também não te dá um espaço tão pessoal quanto um Tumblr por exemplo. A diferença entre os meios físicos e os virtuais é que, de um, eu recebo. Se fosse pra viver só de Facebook e de “likes”, não dava.

TM: A sua facilidade na elaboração de quadrinhos engraçados com a temática tecnologia, redes sociais e games é justificada por você ser da geração Z? Como é ser o “Neymar” dos quadrinhos brasileiros?

JM: Puxa, nunca fui uma criança ligada em video games e computadores, só fui ter internet em casa com 12 anos. O que acontece é que são temas tão atuais e universais, que é impossível não arriscar ideias com eles. Você acaba tendo a chance de criar piadas novas, fugir do clichê, pois tudo se recicla muito rápido nesse mundo.

Neymar? Pô… Sacanagem… Espero pelo menos ser mais bonito.

TM: Finalizo esta entrevista agradecendo, em nome do grupo Sociotramas, a suas generosas respostas. E perguntando: quais são seus planos para o futuro? Tem a intenção de partir para o mundo do cinema de animação?

JM: Uau, eu adoraria mexer com cinema, mas no Brasil ou se faz filme-favela ou filme-cabeça pra meia dúzia de cinéfilos assistir. Por enquanto, quero fazer meus filmes com papel, caneta, na minha prancheta e com música ao fundo. Mas um dia, quem sabe, eu adoraria ter essa experiência.

Nas respostas de Montanaro percebemos que a ideia e a narrativa têm um caráter indispensável no conteúdo de suas tirinhas, independente da plataforma; que existe o desafio de dizer muito com pouco; e ainda há dificuldades em narrar via redes sociais digitais — não sobre redes sociais.

E falar deste tema sem ao menos citar os frenéticos memes da Internet é um verdadeiro gol contra. Um meme de Internet pode ser um hiperlink, vídeo, imagem, hashtag, frase, ou  até mesmo uma palavra que tenha caráter cômico e que se propaga “viralmente” pela Web. Um tipo dos memes imagens, por exemplo, é desenhado em preto e branco, e não tem nenhuma preocupação com a estética visual: o primordial é a piada. O mais interessante é que os Memes são produzidos pelos próprios usuários da Web, tornando, assim, um manifesto de humor nas redes sociais digitais.

De modo abrangente, há muito ainda a se pesquisar sobre as diferentes maneiras e formas de se contar história no ciberespaço — e o humor vem como um gênero, estilo ou linguagem singular, de um universo maior para este espaço. Quem sabe “o humor no ciberespaço” não seja um tema para um possível mestrado…

Como de costume, concluímos com a cereja do bolo; desta vez, é a frase “Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros”, de Leon Eliachar, retirada do blog de Montanaro.

Confira algumas tirinhas do João:

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Por Thiago Mittermayer

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