Supermercados de gente

Lembra-se daquele celular “tijolão”, normalmente preto? O danado podia cair várias vezes — entre outros desastres cotidianos — e permanecia o mesmo: solidamente funcional, um objeto perfeitamente sujeito aos caprichos nossos — os sujeitos. Né?

Também é verdade que o tijolão não tirava fotografias, não acessava a internet e nem sonhava em realizar as tantas tarefas de que os smartphones já são capazes. Ele não era tão “inteligente”, nem tão atraente: design austero, peso e volume incômodos — claro, mais ainda relativamente aos aparelhos atuais. De um lado, a mais objetiva, confiável e, talvez, árida e simples funcionalidade meio fora de forma (“ideal”); do outro, a multicolorida, flexível, complexa e frágil pirotecnia de objetos “smart” — com designs sarados.

Ao considerar o que propus acima, podemos dizer que os telefones celulares evoluíram… Ou, mais precisamente, se modificaram bastante ao longo do tempo. Se pensarmos no que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman abordou em livros como “Amor Líquido”, temos — no mínimo — um exercício de pensamento interessante ao tentarmos derivar esse exemplo de mudança de paradigma dos telefones celulares para outros celulares: nós mesmos, os organismos-sujeitos.

“Nada é para durar”, disse Bauman em variados momentos — inclusive, em excelente entrevista a IstoÉ em dezembro de 2010, quando fez referência direta aos relacionamentos amorosos. A partir do autor, “amor líquido” é — resumidamente — o amor modificado a partir do consumismo, da influência da cultura capitalista e, assim sendo, mais frágil, egoísta e baseado em satisfação no momento presente. De um lado, os “móveis da vovó” atravessaram (atravessam!) sólidas décadas e são queridos pelos familiares; do outro, as camas e mesas compradas em lojas como Marabraz e Casas Bahia são outra realidade — outro frágil referencial. De minha parte, comprei um armário em uma daquelas lojas que, com pouquíssimo volume, rachou em semanas. Sim, foi barato, foi fácil obtê-lo; e, também, igualmente fácil perdê-lo. Não tive sequer tempo de apegar-me a ele…

Principais analogias feitas, menciono os espaços sociais digitais (ESDs) que considero os mais representativos da culminação do amor líquido de Bauman na contemporaneidade. Esses ESDs são os sites de namoro, casamento, relacionamento amoroso, romântico e/ou sexual: legítimos supermercados de gente — mas, também, supermercados de amor e de seus subtipos e componentes. O que quero dizer com isso? Tudo começa, por exemplo, quando lemos uma revista ou site na Web de celebridades em que lindos casais sorridentes falam do quanto se amam. Ainda, quando vemos um filme, seriado ou novela em que casais se conhecem, se relacionam e se beijam: ali, apreendemos não apenas um pouco desse amor líquido de que fala Bauman. Também absorvemos (querendo ou não) lições quanto aos elementos que compõem a ideia de amor — agora, líquido: como é o beijo ideal? O abraço? Como olhar nos olhos de sua parceira do jeito “perfeito”? Como falar com seu parceiro da maneira melhor possível? O que, quanto, como e quando é a relação sexual máxima? Todos esses elementos são dados como aspectos “ideais” do amor (líquido) de uma maneira sem precedentes: o amor e seus componentes como produtos oferecidos e vendidos de tal massacrante e onipresente maneira que são dificilmente escapáveis. O cenário atual, com seus digitalmente empoderados e economicamente santificados estímulos em uma mistura singular, tem muito pouco a ver com a escala e as variáveis de décadas atrás — quando, por exemplo, muitos homens e mulheres certamente foram mais tocados pelo romance, olhares e beijos entre Scarlett O’Hara e Rhett Butler.

Apenas para provocar algumas reflexões: talvez o amor líquido em contexto digital também possa ser chamado “Amor 2.0” — tão somente, por ser uma forma editada do, digamos, amor “original”; ou, ao menos, do que se chamava amor antes do big bang social da era digital. Por outro lado, apesar de ter seus críticos, já se fala em Web 3.0 (em verdade, ainda há até quem questione o termo anterior, a Web 2.0). Como simples exercício de pensamento, poderíamos considerar o seguinte: 1) que as tecnologias — especialmente, as digitais — evoluem muito rapidamente; 2) o amor, uma experiência humana muito complexa, se modifica mais lentamente — mas a equação do amor também inclui as tecnologias sociais. Sendo assim, é razoável imaginar que, enquanto uma tecnologia digital como a Web estiver em uma versão X, algo da natureza do amor estaria — ao menos por algum tempo — em uma versão Y=X-1. Com isso em mente, voltemos aos supermercados de humanos.

Os referidos sites de namoro (e afins) são centros de venda e consumo do amor líquido em contexto digital; também são alguns dos operadores de uma, digamos, “lei da oferta e da procura amorosa” — que ainda acaba por redefinir o amor, já que a tecnologia social (no caso, digital), como proposto há pouco, é um fator na equação amorosa. Isto acontece, em parte, da seguinte maneira: de fato, os sites de namoro funcionam, em um primeiro momento, como supermercados de gente; e, secundária e indiretamente, do amor e de seus elementos. Afinal, é a partir das pessoas que o amor e seus componentes serão derramados mundo afora (bem, nem sempre). Em outras palavras: quando alguém escolhe outra pessoa em um site de namoro, isso ocorre a partir de um monte de variáveis (altura, peso, escolaridade, interesses, aparência, etc.) — tal como quando compramos um objeto em um site de uma loja, ou mesmo presencialmente. Esse formato da relação — analítico, racional e comercial por excelência —, além de coadunar-se bem com a ideia de uma “lei da oferta e da procura amorosa”, reforça e é reforçada pela mesma visão que nos permite, como diz Bauman, relacionar-se “com a calculadora nas mãos” e pensar em “lucro” e “prejuízo” como vizinhos do amor. Da mesma maneira como já é bastante natural pensar em “alugar uma barriga” e “comprar esperma”, também temos — no limite do que deveria ser uma relação primariamente baseada em amor (sim, juízo de valor meu) — aqueles que fazem de um filho um bem de consumo emocional: “ter um filho para ser feliz” (um pensamento ainda comum, mas cada vez menos popular. De fato!).

Em outra fatia desta torta de zeros e uns que estamos a degustar, é interessante considerar os atributos fluídicos e heterogêneos da tecnologia digital — herdados por suas derivações, como sites na Web — somados à fragilidade e flexibilidade dos laços envolvidos em uma troca comercial: esta permite, tipicamente, até a devolução do produto e/ou troca por outro(s). Da mesma maneira, nos supermercados de gente (sites de namoro e afins), também não é muito difícil “mudar de ideia” e partir para outra: bastam alguns cliques. Bloqueie, “delete”/apague quem não lhe interessa; busque, visite, mande mensagens para alguém com um apelido engraçado, uma foto intrigante, e/ou determinados interesses que agora lhe parecem mais atraentes. A grama parece de um verde ainda mais irresistível quando está do outro lado da cerca digital. Ainda: a facilidade para (supostamente) “amar” via tecnologia digital é muito grande — em grande parte, por conta da elevada quantidade de ofertas/possibilidades de amor. Assim, a lei da oferta e da procura amorosa fica de tal maneira que a oferta é vasta por conta do fácil acesso. Algo como o amor tem uma procura garantida e elevada, convenhamos. Com uma oferta crescente e facilitada e uma procura — no mínimo — estável, temos por lógica consequência que o preço que as pessoas estão dispostas a pagar pelo amor cai. Ou despenca. Troque “amor” por “água” (outra coisa que todos querem e necessitam). A mesma situação acontece.

No fim das contas, números e corações fora, vale a pena pensar a respeito do que Bauman respondeu — na entrevista já referida — quando perguntado sobre o que diria aos jovens deste mundo de laços frágeis e amor líquido: “Eu desejo que os jovens percebam razoavelmente cedo que há tanto significado na vida quanto eles conseguem adicionar a ela por meio de esforço e dedicação. Que a árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior do que a soma de seus momentos”. Talvez, se quisermos e tivermos capacidade para superar toda a fragmentação que nos leva a esse Frankenstein de pedaços de vidas — arremedos de experiências incompletas, soma de durações mesquinhas. Quem sabe, trocar uma vida tecida em colcha de retalhos com dezenas (centenas!) de trailers vibrantes — esses perpétuos promissores de algo — por toda uma vida-em-si: um belo filme, com todos os seus altos e baixos, até que o vento leve. Quem sabe.

Por Marcelo Salgado

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7 comentários sobre “Supermercados de gente

    • Marcelo Salgado disse:

      Renata,
      Obrigado pelo comentário e por compartilhar seu texto!
      Sei que amor líquido e Bauman são assuntos meio “batidos”; entretanto, claro, isso não faz de um assunto menos interessante — só torna mais desafiador trazer um ponto de vista renovado, um cruzamento novo de ideias, algo que creio também ter feito aqui.

      ADOREI especialmente isso aqui em seu texto:
      “Love seems to be, in this Age of Extremes a la Hobsbawm, either entirely a question of achieving some sort of artificial stability via outdated social contracts or a question of achieving instant gratification which is disposable and superficial”. Abraço!

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