O gênio da lâmpada

Lá nos idos, quando minhas manhãs eram bancos e apagadores de madeira, ouvi a professora dissertar sobre uma curiosa hipótese científica. “Então”, e tamborilava o lápis na mão espalmada, “os cientistas acreditavam que ratos brotavam de um punhado de comida e panos sujos embaraçados no canto escuro”. A abiogênese, cognominada “geração espontânea”, foi demolida por Louis Pasteur dois mil anos desde a menção feita por Aristóteles. A receita — juntar inanimados e esperar pela fervura da sopa primordial — ainda orienta o modo como invento os objetos que me interrompem a atenção.

(Dar nome às coisas é sempre um gesto fabular. Nenhum a priori determina a coincidência entre o nome e a coisa).

Preparo-me para escrever. A mesa de trabalho sustenta uma xícara de café, um smartphone, uma luminária, o computador, dois pares de óculos e mais de cem volumes. Cem volumes entrincheiram minha visão periférica. Dentro em muitíssimo breve, eu (sujeito, to subject) estarei submetida às silenciosas sugestões dos meus símiles (objetos, to object). “Se, então, a atividade do sujeito, em seu aspecto mais fundamental, é a atividade de sujeitar-se ao inevitável, o modo fundamental da passividade do objeto, de sua presença passiva, é a que comove, incomoda, perturba, traumatiza a nós (sujeitos): em seu aspecto mais radical, o objeto é aquilo que objeta, aquilo que perturba o funcionamento tranquilo das coisas”. As aspas são do esloveno Slavoj Žižek, nas primeiríssimas da obra A Visão em Paralaxe. A dissolvência da divisa entre os objetos e eu fará surgir o novo post para o blog do Sociotramas.

Estou absorta na leitura em PDF de Digital Contagions: A Media Archaeology of Computer Viruses, autoria do sub-reptício Jussi Parikka e indicação de Erick Felinto. Anota Parikka: ″The history of media and technology is filled with accidents and breakdowns. The train introduced the train accident, with the boat came the boating accident, and inherent in several techniques of data storage, such as papyrus, paper, and film, is the ′accident′ of the erasure of information″. Um dos objetivos da visada arqueológica de Parikka é o mapeamento dos ″acidentes″ que sobrevêm na cultura digital. Antes da industrialização, tais acidentes eram tidos por desafortunadas coincidências naturais: uma tempestade ou enchente, por exemplo. ″With industrial machines, the accident became an internal problem as technologies threatened themselves as a result of their own power″.

Não tarda e uma espécie de post-it digital estoura no canto direito e inferior da tela. A interrupção anuncia um email — e o email, as notícias do mundo azul: “um amigo”, adverte a missiva eletrônica, “publicou no seu mural”. A curiosidade forjada rasga um buraco no texto de Parikka e, por lá, escapo para o facebook.com.br. Mas aquele apito agudo foi como um trem a atravessar a mesa de trabalho. Meu celular fez piscar a luz verde intermitente que substituiu o sinal sonoro e tive mesmo que me esgueirar para alcançar os óculos mais próximos: “Quer mais café, mademoiselle?”. A mensagem enviada pelo número zero-operadora-onze-9-8555**06 foi gerada pelo BlackBerry registrado em nome da minha irmã caçula, cujo corpo físico distava cerca de três metros do meu.

“Então”, tamborilei meu celular sobre a palma ainda alarmada, “que espécie de ′acidente′ é causado por um punhado de dispositivos tecnológicos em plena atividade e uma xícara de líquido fervente?”. Do alto da sua descomunal A Montanha Mágica — o quarto livro, de cima para baixo, trincheira da esquerda — Thomas Mann epigrafa: “Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido; porém o faz, desligando o indivíduo das suas relações e pondo-o num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo”. Tão intensas as interações a fórceps: um Parikka em PDF, o pop-up-you-got-mail, a timeline conta-gotas do Facebook e o grito maquinal do celular. E já nem me lembro. Eu, sujeito, “pedante e burguesote”; dândi transformada em flâneur pela atadura fenomenológica entre eu-objeto (o sujeito, aquele que se sujeita a: a sujeição é sempre um duplo) e o objeto-ele-mesmo (aquilo que põe impedimento, novo duplo): o computador, o livro, o celular, os óculos. Eu, expropriada de mim mesma, vagabundeio — nas palavras que empresto de Lucia Santaella — pela “realidade misturada”, os “multifluxos”, as “novas poiesis“.

Mas, o que fora esquecido?

A lâmpada!

O link divulgado na minha página do Facebook dava para o documentário franco-espanhol The Light Bulb Conspiracy — algo como “A Conspiração da Lâmpada” —, dirigido pela cineasta Cosima Dannoritzer. O filme, lançado no ano de 2010, foi batizado em português com o didático “Comprar, jogar fora, comprar: a história da obsolescência programada”. “Então”, e tamborilarei pela última vez qualquer que seja sobre a mão, “a vida útil dos bens de consumo é abreviada (tornada obsoleta) de maneira intencional (programada) pelos seus fabricantes. O que nos obrigaria, grosso modo, a ‘comprar, jogar fora, comprar’. Todo produto, hora ou outra, morre à míngua: falta-lhe assistência técnica, acessórios must have e peças de reposição. O transtorno é abrandado com a aquisição de item correlato ou superior”. Meu release é uma breve pincelada e o filme legendado pode ser conferido aqui.

Ignoro o debate necessário (socioeconômico, político e ambiental) para assistir à cena em que um grupo de americanos entoa o clássico Happy Birthday. Há balões coloridos, equipe de TV, bolo confeitado, crianças trepadas em árvores, camisetas comemorativas e velas. O objeto de homenagem é a lâmpada instalada nas dependências do Corpo de Bombeiros, Livermore (!), Califórnia. O feito da ilustre fonte luminosa é — pasmem — iluminar. Em 2001, cerca de 900 pessoas congratularam o objeto pelos seus 100 anos de luminosidade ininterrupta. A terceira webcam, incumbida de vigiar o parente de filo, está prestes a pifar e a lâmpada exibe nenhum sinal de exaustão. O caso do objeto aniversariante é mesmo de um silêncio eloquente: de tão fronteiriço — entre o fato e o lunatismo — parece, apenas, uma circunstância desimportante. Ao fim e ao cabo, o lume do episódio é o avesso com vista para o reverso. Amamos a lâmpada que não apaga quando não apagamos com ela. A lâmpada, nossa imagem e semelhança, um animal totêmico.

Apesar de julgar romanesco o fato de Copérnico ter vivido cinquenta anos antes da invenção do telescópio, reconheço minha natureza pós-humanista. Já não se trata de uma escolha, mas de uma condição: a coalescência entre o orgânico e o maquínico, a constatação do cyborg (cybernetic organism).

A narrativa registrada, daqui para alto, dá a ver a gênese da nova espécie: caracteres tipográficos são minha manuscritura, os óculos são como enxergo, o pop-up interrompe a leitura do arquivo em PDF e o celular apita notícias do que acontece às minhas costas. A máquina é meu instrumento de medida — e não o contrário. Para encerrar, e tendo amontoado tanto no centro escurecido do meu gabinete, pergunto: como identificar e interpretar aquilo que é considerado sobra? Dito de outro modo: se o acidente é uma propriedade de toda entidade, como identificá-lo? Quais são os refugos produzidos pela media sphere? Para onde (socioeconômico, político e ambientalmente) tais resíduos apontam?

O cartesiano, diante daquelas questões, morrerá à míngua: nenhuma consciência individual virá alimentá-lo. O ecossincrético será soterrado pelo excesso bibliográfico. Tão citado Edgar Morin e a ″junção epistemológica″ já prevista no seu livro Le Paradigme Perdu: La Nature Humaine, publicado em 1973. Os artefatos tecnológicos repetem: não há conhecimento estanque. Seus acidentes, completam: o meio ambiente é hábito, desvio e nenhum homem poderá convertê-lo em emblema.

O acidente esfrega. O pós-humanismo é o gênio da lâmpada.

Interessa-nos não o gênio, propriamente, mas a lâmpada. O que, sobre nós, conta a lâmpada?

Por Maria Ribeiro

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6 comentários sobre “O gênio da lâmpada

  1. Marcelo Salgado disse:

    Texto denso e espetacular. Quem sabe, sabe! Questões muuuito pertinentes. Para onde vão os refugos da media sphere? Meu palpite: na maior parte, infelizmente, são engolidos e regurgitados… :- / No máximo, recebem uma pintura Tabajara; depois, de volta pra boca do povo. Eca! E assim, continuamos (na maior parte) na mesma. :- (

    • Maria Ribeiro disse:

      Obrigada, Marcelo! A pena revisora mais minuciosa do país plus adjacências! Pois. Naquela passagem, Parikka está ocupado com a materialidade dos processos pós-industriais. E diz, noutro trecho, que o acidente das tecnologias de armazenamento é o apagamento. Fiquei aqui pensando, por outro lado, se a permanência não é — igual modo e concomitante — um acidente. Suponhamos que eu queira me livrar do computador onde escrevo e arremesse a máquina num vale. Um vale profundo. Por meio do recurso GPS, um samaritano obstinado pode encontrar-me e devolver o que eu já não queria. Então, desapareço. E o primeiro litro de leite que eu comprar com cartão de crédito denunciará minha vizinhança. O mesmo se eu fizer ligação do meu celular ou dirigir um carro (o meu, o de um amigo ou um alugado) ou frequentar uma padaria. Um amigo me vê, fotografa e publica minha foto, eu e o litro, no Facebook.

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