Occupy TED

Fonte: TEDxPhoenix’s

Entre tecnoutópicos e neoludistas, temos os tecnorrealistas. Ludismo e tecno-utopia não são culturas novas. Temores em oposição a entusiasmos tecnológicos existem desde a mais tenra infância da era industrial. Nem mesmo o manifesto digital do tecnorrealismo pode ser considerado uma grande novidade: com os seus 14 anos de idade, já é um adolescente. Olhar para trás e revisitar panfletagens tecnoutópicas, como o gospel tecnoespiritual do ciberpunk dos anos 90 (where do angels hang in the cybernet nineties?) e tecnodistópicas (como o gótico high tech de Bruce Sterling, que ainda sobrevive como categoria de um imaginário distópico plausível) é um exercício que coloca em perspectiva algumas de suas versões atuais. Entre essas, a tecnoutopia contemporânea corporificada na Singularidade Tecnológica de Ray Kurzweil; ou, ainda, sua forma oposta: o cenário nanodistópico marcado pelo medo da “gosma cinza“.

À medida que a tecnologia avança, velhos medos e/ou empolgações perdem gradativamente o sentido, e vão sendo substituídos por novos medos e/ou empolgações. Isso se dá pelo mesmo motivo atemporal: há um sublime tecnológico que une o terrível ao magnífico na potência transformadora da tecnologia. Este sublime tecnológico vem nos atormentando e/ou deslumbrando desde que se tornou evidente a verdadeira dimensão da horizontalidade que nos coloca a todos — seres vivos e máquinas — em uma mesma relação de pertencimento ontológico e existencial.

Esta horizontalidade e equivalência entre homem e máquina em suas redes de relações (enquanto atores legítimos do social) é o principal argumento de Bruno Latour. As redes sociais digitais também vêm gerando profundos medos e candentes entusiasmos: há a distopia da alienação individual de Sherry Turkle versus a utopia comunitária global de Clay Shirky; há também a TED-utopia da Realidade Híbrida de Parag Khanna e, no lado oposto, a crítica veemente ao TED por parte de intelectuais de esquerda — como no ensaio Against TED — e de opiniões contrárias como a de Eugeny Morozov.

A cultura das redes sociais está se tornando arena de fortes conflitos entre neoideologias progressistas e ingênuas — como certamente o são algumas das tendências globais de inovação tecnológica veiculadas pelo TED; e outras ideologias reminiscentes de velhas esquerdas — a exemplo do radicalismo político de movimentos globais como o Occupy, ambos igualmente embrenhados e propagados viralmente e velozmente nas redes sociais.

Entre a cultura ajustada ao status quo do TED e a cultura de antagonismo direto ao status quo do Occupy, há apenas um ponto em comum: a sua viralidade e presença massiva nas redes sociais. Se de um lado a cultura da inovação tecnológica apresentada pelo TED se origina e se propaga via redes sociais para, apenas depois, afetar espaços físicos, a cultura da ocupação territorial de espaços públicos do movimento Occupy segue um deslocamento inverso: esta se origina e se propaga territorialmente para, somente depois, estender seus braços digitais, formando comunidades globais entrelaçadas pelas redes sociais.

É possível encontrar ideias e possibilidades de mudança radical e transformadora entre as muitas palestras e livros veiculados pelo TED. É também possível buscar alternativas para mudar o mundo montando uma barraca em uma praça qualquer do planeta, tanto faz se no Egito, na Grécia ou no Brasil. Seja qual for o meio escolhido para buscar a possibilidade de mudança — pequena ou grande, disruptiva ou incremental —, o fato é que as redes sociais digitais estão sendo usadas como um caminho compartilhado para essa mudança, como um ponto de encontro e de apoio para seguirmos em frente. Criticar e denegrir a busca de quem está do nosso lado nas redes, apenas porque não concordamos com a forma escolhida para a manifestação desse desejo de mudança, é uma grande perda de tempo.

Se existe um tecnorrealismo das redes sociais, que seja um realismo especulativo — mas de uma especulação um pouco diferente: que especule sobre a necessidade de integrarmos o terrível ao magnífico, de unirmos o medo ao entusiasmo e, assim, chegarmos ao sublime tecnossocial existente na conexão entre tantas, ricas e complexas, multiplicidades entre seres, objetos, e perspectivas.

Por Renata Lemos-Morais

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Um comentário sobre “Occupy TED

  1. bernt65 disse:

    Renata, parabéns pelo excelente texto. Ao terminar, me perguntei se não seria “também” na arena de crítica às redes sociais “um lugar” que nos traz para reflexão e nos levará a esse “realismo especulativo”, que unirá o “terrível e magnífico” ao qual você menciona. Não seriam esses conflitos que nos permitem vislumbrar outras “possibilidades e probabilidades” para atingirmos esse “tecnossocial existente na conexão entre tantas, ricas e complexas, multiplicidades entre seres, objetos, e perspectivas.?”
    Vejo nessa entrevista de Manuel Castells, também defensor das redes como fonte de esperança e alternativas, um dos representantes do que você chamou “tecnorrealista” especulativo. Estou errado?
    http://www.outraspalavras.net/2012/08/03/castells-quer-tecer-alternativas/

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