Ativismo de sofá e a metáfora dos universos paralelos

Recentemente, algumas imagens do Movimento Ocupe Estelita chamaram-me atenção na internet. A motivação central deste Movimento foi protestar contra a demolição dos antigos armazéns situados no Cais José Estelita, no Recife Antigo, para dar lugar à construção do Projeto Novo Recife (grande empreendimento imobiliário, que modificaria substancialmente a paisagem urbana e a relação das pessoas com a cidade).

Este Movimento propagou-se rapidamente pelas redes sociais, a partir de cartazes feitos por artistas gráficos simpatizantes à causa, que foram compartilhados, sobretudo, no Facebook. Os cartazes convocavam os recifenses a fazerem um dia de protesto em frente ao Cais, no qual haveria música, passeio de bicicleta, artes, pintura de camisetas e outras atividades. As fotos deste acontecimento podem ser vistas no blog cheztoi. Numa delas, manifestantes do Movimento posam sentados num sofá, em pleno Cais José Estelita, ao lado de um cartaz que diz: “ATIVISTAS DE SOFÁ”.

Esta expressão me fez pensar em algumas questões…  Antes de tudo, o “sofá” remete à ideia ultrapassada de imobilidade, desconsiderando acessos móveis à internet, quando há diversas possibilidades de interação fora de casa, por meio dos smartphones, por exemplo. Segundo Raphael Tsavkko, “o problema do chamado “slacktivism ou militância de sofá” é criar a “ideia de que basta assinar petições e gritar nas redes sociais que é possível mudar o mundo”. Tsavkko também ressalta que “em alguns casos, a militância on-line pode resolver problemas”, mas que “não basta sentar, apertar um botão e esperar que o mundo mude.”

No caso do Ocupe Estelita, a discussão começou online; por isso, houve um momento em que seus participantes foram chamados de “ativistas de sofá”. Sem perder o rebolado, eles simplesmente demonstraram como esta expressão era reducionista ao levarem o sofá para o Cais e posarem ali sentados, protestando. Resultado: a foto mostrou como protestar pode ser um ato divertido e bem humorado e, ainda, comprovou que qualquer protesto atualmente pode estender-se tanto a ambientes online quanto offline. Como vivemos conectados, os fatos cotidianos dialogam conosco o tempo inteiro dentro e fora da internet, num fluxo contínuo e interligado de informações e interações. Logo, não faz mais sentido acreditar nesta separação de mundos ou de realidades virtuais e reais.

No livro Linguagens líquidas na era da mobilidade (2008), Lucia Santaella esclarece que metáforas criam adesão, por isso, tem grande poder de penetração. E a grande metáfora que ainda predomina é a dos “universos paralelos: de um lado, o mundo real; de outro, o mundo virtual”. Essa divisão metafórica de realidades é justamente o que norteia a redução do ativismo digital ao ativismo “de sofá”.

Para Thiago Carrapatoso, “o termo ‘ativista de sofá’ é um tanto pejorativo”, por transmitir a ideia de que “são o conformismo e a preguiça que norteiam a discussão de indivíduos, em frente a computadores, e não nas ruas protestando…” Em seguida, Carrapatoso conclui: “talvez, o problema não seja do ‘ativista de sofá’, mas sim das decisões e articulações ainda estarem atrasadas às questões de comunicação do mundo. Enquanto as discussões e decisões ainda não considerarem o plano virtual como válido (e ele é real!), muito deste ativismo pode parecer em vão”.

Retomando meus pensamentos, no caso do Movimento Ocupe Estelita, as redes sociais na internet foram os meios de comunicação que mais reuniram, convocaram e divulgaram ideias, vídeos, cartazes e fotografias para seus públicos. Isto foi feito por meio de múltiplas vozes (artistas gráficos, músicos, jornalistas, urbanistas, cineastas, historiadores, professores universitários, bikers, entre outros), motivando as pessoas a se encontrarem para discutirem juntas o projeto de cidade em que desejariam viver.

A internet deu visibilidade à questão e promoveu discussões pertinentes que aconteceram on e offline, simultaneamente, demonstrando o quanto a expressão ATIVISTAS DE SOFÁ e a metáfora dos UNIVERSOS PARALELOS não se aplicam à realidade atual. Afinal, muito do que acontece ou é discutido nas redes sociais parte de inspirações e gera consequências que afetam nosso cotidiano dentro e fora da internet. Para que espaços existam, sejam habitados e compartilhados socialmente, é preciso haver interações, descobertas, diálogos e até mesmo momentos de silêncio. Fechando com Lucia Santaella (idem): “não importa qual forma o corpo virtual possa adquirir, sempre haverá um corpo biológico junto, ambos inseparavelmente atados (…) Historicamente, o corpo, a tecnologia e a comunidade se constituem mutuamente”.

Fontes:

Imagem ativistas de sofá: http://cheztoi.posterous.com/amore-do-b

Blog Ocupe Estelita: http://direitosurbanos.wordpress.com/ocupeestelita-0/ocupeestelita

Por Maria Collier de Mendonça

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4 comentários sobre “Ativismo de sofá e a metáfora dos universos paralelos

  1. Hermano Cintra disse:

    Não vou resistir. Vou registrar meu desgosto com o texto do tal de Raphael Tsavkko. Apenas mais um a surfar no sucesso alheio para registrar uma posição preconceituosa e mal informada. Ele precisa registrar o quanto o movimento Kony 2012 foi bem sucedido para tirar sua lasquinha. Fala bobagem ao apontar uma conexão da LRA com a etnia acholi. Não existe apoio popular, ideológico ou étnico, a esta milícia sanguinária. O fato de Kony ser acholi não o impediu de sequestrar e dizimar milhares do seu próprio povo. Não há uma étnica que ele proteja. Se ele não acredita na ONG que não foi formada pelo produtor americano do filme. Foi instituída por um grande grupo de pessoais, acompanhados de várias lideranças locais. Acredite no promotor geral da Corte Internacional de Haia, Luis Moreno Ocampo. Ele afirma com todas as letras que Kony não tem qualquer ideologia, apenas prima pelo terror para manter seu poder. Mais, a ONG não se restringe a agir na rede, tem projetos sociais importantes nos locais mais atingidos pela LRA, infra-estrutura para inclusão (escolas, hospitais…) e comunicação básica (não facebook para gente no sofá, alto falantes para pessoas em risco). É muita bobagem em nome de uma pseudo sabedoria feita para apropriar-se da grande relevância alcançada pelo movimento Kony 2012. O ativismo de sofá atacado por Raphael e muito bem defendido aqui pela autora, levantou uma quantidade volumosa de dinheiro. Diversos outros detratores de plantão já acusaram a ONG de malversação de recursos, o que também é raso e devidamente desmentido. Suas contas são auditadas e o máximo que se pode dizer é que havia caído alguns poucos pontos no ranking de outra ONG dedicada a controlar desvios. O sucesso do ativismo virtual é atacado por dois motivos claros: o primeiro é mais plausível, os poderes de plantão se incomodam com as novas possibilidades da ação coletiva não institucionalizada; já o segundo não, trata-se da mera vontade de aparecer. O primeiro eu entendo e luto contra. O segundo eu desprezo. Parabéns pelo texto Maria.

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