Sexo, Mentiras e Redes Sociais

As redes sociais são hoje instrumentos privilegiados para reverberação de fatos e ideias. Mas estes andam junto com seus companheiros, os boatos e as mentiras, assim como com seus primos mais sofisticados, as teorias da conspiração. Os mesmos mecanismos que amplificam o debate positivo servem, igualmente, para o abuso e agressões. Como sabemos, as tecnologias não possuem intencionalidade intrínseca e independem, inclusive, daquelas de seus criadores.

O brilhante longa de Steven Soderbergh, Sexo, Mentiras e Videotape, foi lançado em 1989, mesmo ano em que Tim Benners-Lee propôs a World Wide Web. O filme ganhou o mundo impulsionando o cinema independente. Chocou com uma história de exposição desmedida da intimidade de um casal. As disfunções sexuais e sociais de seus diversos personagens criam uma trama não apenas envolvente, mas também perturbadora.

Vinte anos depois, uma advogada de Sorocaba, inspirada ou não pelo filme, gravou uma longa conversa na qual interpela sua melhor amiga com um dossiê provando a traição desta com seu marido. A cena, que acaba mal, obviamente não tem a delicadeza e sofisticação do filme. O que a torna marcante são as redes sociais. Publicado no YouTube, o vídeo também ganhou o mundo. Segundo artigo da Revista Época, foi visto por mais de 1 milhão de pessoas pouco depois de ser lançado.

Este incidente está longe de ser um caso isolado. Em maio de 2010, a American Academy of Matrimonial Lawyers publicou um press release relatando a constatação de 80% dos advogados de divórcio de maior prestígio naquele país: é crescente o uso das redes sociais, particularmente do Facebook, como evidência de traição e motivo de litígios conjugais.

O descuido com fatos do passado ou do presente, aliados à exposição imediata e também desmedida pelas redes sociais não caracterizam propriamente uma mentira, e por vezes, não nascem de um abuso. Mas provavelmente é abuso o seguinte caso de uma pessoa conhecida em ambiente de trabalho, com a qual não mantenho mais contato: de maneira totalmente inusitada, apareceu em meu feed de notícias no Facebook há poucos meses a mensagem de que o fulano havia assistido a um vídeo gay.

Não sei se esta é sua preferência sexual, e isto não é da minha conta, mas imagino não ter sido sua intenção divulgar o vídeo assistido. Provavelmente, o incidente segue a linha do maldoso esquema utilizado pelo SocialCam. De maneira pouco transparente, o aplicativo obtém de usuários desavisados a permissão para postar no Facebook, em seu nome, vídeos muitas vezes nem vistos por completo e com conteúdo que frequentemente não endossariam a ponto de publicá-los.

Mais trivial é um estudo divulgado pelo The Telegraph. O site Mymemory.com entrevistou 1.500 mulheres para descobrir que 25% postaram fotos pouco favoráveis de seus amigos no Facebook. O estudo é pouco relevante, mas a maior parte “confessa” suas intenções como vingança ou despeito. Porém, este comportamento enquadra-se no contexto maior e mais importante das perseguições pessoais através da internet, fenômeno que já cunhou dois termos:  Cyberstalking e Cyberbulling. Assim como já arrola vítimas mortais e casos espetaculosos como o do suicídio da adolescente americana Megan Meier de 13 anos, provocado por um maldoso hoax perpetrado por um homem de 47.

Os hoaxes, embustes ou falsidades divulgados de maneira a parecer notícias sérias, não nasceram com a internet. O termo foi cunhado no século XVIII e diversos casos famosos antecedem a rede em muitas décadas. O site Listverse apresenta uma lista de 10 dos mais famosos, o primeiro, de 1717, assim como alguns outros, poderiam ser classificados como elaboradas piadas e alguns foram motivados pelo espírito do primeiro de abril. No entanto, a internet e as redes sociais não apenas aumentaram sua frequência (veja a lista de 15 do site Mashable), como tornaram mais fácil executar hoaxes. Há dois meses, a vítima foi Umberto Eco. Um perfil falso criado em seu nome angariou mais de 2.000 seguidores no Twitter antes de propagar um elaborado hoax garantindo que o escritor Gabriel Garcia Marques estava morto.

The Turk – o falso autómata jogava xadrez, o primeiro dos grandes hoaxes.

As facilidades criadas pelas redes sociais são hoje também ferramenta privilegiada de diversos grupos dedicados de maneira mais ou menos insidiosa a teorias da conspiração. O blog Muertos, dedicado ao pensamento crítico sobre estas teorias, explica em um longo artigo porque o YouTube é hoje o canal de comunicação privilegiado por gente que acredita que o colapso do World Trade Center em 2011 foi causado por explosivos previamente instalados pela CIA!!!

Não acredito que as redes sociais venham a ser o paraíso da mentira ou o templo dos embustes. Mas é preciso perceber nelas as possibilidades para abuso e agressão, convivendo ao lado da abertura ao debate e ao pensamento crítico, nascidas ambas dos mesmos mecanismos tecnológicos. Como diz brilhantemente Howard Rheingold, tecnologias não nascem prontas, elas são produto de seu uso e temos a responsabilidade de molda-las para o melhor.

Por Hermano Cintra

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3 comentários sobre “Sexo, Mentiras e Redes Sociais

  1. Jana Valentina disse:

    Penso, que é a realidade de hoje!
    Não é facil conviver com o real em uma rede social, pessoas ficam admiradas quando a realidade de um casal muda o contexto em uma rede social. Bem, penso que devemos respeitar a intimidade de cada pessoa, criticas podem aparecer e cabe você administra-las!
    Existem os aproveitadores de ocasiões, existem pessoas que divulgam seus trabalhos e existem pessoas que a distancia entre familiares é amenizada atraves de uma rede social. Seguimos concordando ou não e o importante é ser você mesmo!

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