Os Hupomnêmata e os posts do Facebook

Em meados de setembro de 2011, o Facebook anunciou a Timeline, uma nova visualização do perfil, totalmente personalizável e que proporciona acesso, em ordem cronológica, a toda a história do usuário, exatamente como incluída por ele no Facebook, até o momento presente. O usuário tem a possibilidade de categorizar os eventos, configurar a privacidade e escolher as pessoas de sua rede (ou redes) a ter acesso à sua história de maneira completa ou parcial. Caso tenha havido algum intervalo em branco na Timeline, ou seja, uma ausência do usuário na rede que o tenha impossibilitado ou impedido de postar em suas páginas por algum tempo, ele pode voltar, incluir novas informações e preencher os espaços em branco do intervalo. É possível acrescentar, por exemplo, a foto daquele ingresso do show do Metallica tão aguardado no ano passado, ou a imagem do desenho feito pelo namorado naquela tarde fria, às margens do Sena, em Paris, em 1999.

Os registros que se sucedem nos posts dos usuários não guardam uma organização cronológica a priori. O tempo dos usuários não é histórico, cronológico, sequencial, com o passado localizado no ontem o presente no hoje e o futuro no amanhã. Para os usuários, a seta do tempo não aponta numa única direção. A organização temporal foi providenciada pelo Facebook.

Nos registros dos usuários, o tempo subjetivo e afetivo se revela em observações e comentários sobre acontecimentos do dia a dia; em avisos, frases retiradas de um livro qualquer ou trechos de músicas preferidas; em fotos dos eventos de família, das viagens e das crianças; em links para vídeos, matérias jornalísticas ou artigos assinados; em manifestações de caráter religioso, político ou humanitário; e assim por diante.

Difícil não se recordar de Foucault, em A Escrita de Si (1983). Ele nos conta sobre os hupomnêmata, que podiam ser livros de contabilidade ou cadernetas de anotações que “constituíam uma memória material das coisas lidas, ouvidas ou pensadas”. Não eram diários íntimos e tampouco simples suportes para o exercício da memória — nem tinham como função guardar segredos ou revelar o desconhecido, mas justamente o contrário: reunir e registrar o já dito, o já lido e o já ouvido por alguém, com a finalidade de, em momentos posteriores de reflexão, confrontar esses fragmentos de discurso consigo mesmo e seus pensamentos e ideias. Os hupomnêmata se constituíam, portanto, em importantes auxiliares da subjetivação do discurso e, por isso mesmo, contribuíam efetivamente para a formação da consciência de si gnôthi seautón ou “conhece-te a ti mesmo”, atribuído a Sócratesum conceito caro aos gregos.

Os posts dos usuários na Timeline do Facebook e os hupomnêmata dos gregos parecem guardar algumas semelhanças entre si. Em ambos os casos, os registros se configuram como um misto de pontos de vista sobre as coisas do mundo, de caráter particular — porém, de acesso público. Outra semelhança aparente é que, em ambos os casos, os registros não buscam a fidelidade à realidade, mas a fixação de um ponto de vista.

Se para os gregos a escrita dos hupomnêmata ajudava-os a combater a stultitia (agitação da mente, a instabilidade da atenção), em tempos de redes sociais, em que a tal stultitia parece reinar entre os internautas, os posts no Facebook — aparentemente inúteis, cansativos e sem significado, como observam alguns — talvez possam se revelar de grande utilidade na formação de um gnôthi seautón contemporâneo.

Por  Patrícia Fonseca Fanaya

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