Nossos umbigos digitais

“Quero ter um milhão de amigos” tornou-se uma ilusão bem mais sofisticada do que a música de Roberto Carlos e Erasmo Carlos originalmente propunha com uma descompromissada hipérbole. Essa ilusão — digitalmente forjada por tecnologias que redefinem e se misturam às relações sociais — se manifesta com frequência por meio de “amizades” fantasmáticas entre pixels que representam imagens e outros signos; os quais supostamente representam pessoas, que supostamente representam quem e o que realmente são.

Claro que há casos de amizades que começam “do zero”, desde essas etéreas ligações entre… Zeros e uns. Também há amizades que partem de vias mais tradicionais, presenciais, e ganham suas extensões ou versões digitalizadas. No entanto, algo bem mais preocupante é a tendência a valorizar, acima de tudo, o número de seguidores, de “Curtir”, de “retuítes” e de “amigos” que dificilmente merecem o título. Essencialmente, esta é, ainda, uma discussão e um confronto clássico, entre qualidade e quantidade — de laços sociais e emocionais.

Difícil não conhecer pessoas que fazem questão de compartilhar pequenas e triviais coisas que lhes acontecem regularmente, via Facebook ou Twitter, para centenas (ou milhares) de “amigos”! É como se seu valor na sociedade passasse a ser, de maneira crescente, passível de medição precisa por tais números. Aliás, os vários graus desse comportamento ensimesmado no Facebook e os excessos no uso do site já podem ser mensurados por um teste, que também ajuda a detectar traços desse novo tipo de narcisismo (digital). Enquanto isso, após lançar suas ações na bolsa de valores de empresas de tecnologia (Nasdaq) em maio deste ano, o Facebook continua empilhando novidades — e mídias — para incrementar a experiência de uso do site: já está em testes uma ferramenta que permitirá aos usuários compartilhar e publicar músicas em sua linha do tempo. Teremos aí mais um esforço em convergência midiática e mais uma maneira de manter o usuário preso ao Facebook (como se, para muitos, sequer fosse necessário).

Se, de um lado, há aqueles que publicam a foto do sanduíche que comeram no almoço com meia dúzia de palavras que se assemelham ao idioma nativo sem nenhuma dificuldade — e com enorme e admirável rapidez! — também há os que sofrem do mal oposto: paralisados na frente do computador, esperam as palavras brotarem… E nada! Bem, seus problemas acabaram. O aplicativo “Write or die“, fatalista desde o nome, institui o fim do “bloqueio de escritor”: com ele ativado, ou você escreve algo em 45 segundos, ou o aplicativo psicopata apaga seus esforços anteriores.

Se as configurações de privacidade falharem, quem sabe, daqui a um tempo, criam um aplicativo para bloquear aqueles que escrevem sobre o que comem, vestem e fazem como se fossem o centro do universo dos outros… Narcisos e narcisas que trocam o espelho d’água pela tela do monitor, tremei!

Por Marcelo Salgado

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8 comentários sobre “Nossos umbigos digitais

  1. Cíntia Dal Bello disse:

    Marcelo, fiquei impressionada com esse aplicativo – “Write or die”. Como se não bastasse a compressão de ideias e sentimentos em textos telegráficos (140 caracteres), eis o que faltava: algo para assegurar o dromorritmo cibercultural (em alusão à dromosfera de Paul Virilio e à dromocracia de Eugênio Trivinho). É claro que os usuários podem fazer disso um passatempo interessante, algo para testar sua capacidade de escrever bons textos em pouco tempo, um desafio contra essa ampulheta digital que “apaga” tudo o que já foi tentado se a marca dos 45 segundos não for respeitada… Há algo de lúdico nisto e em tudo o mais que permeia as práticas cotidianas nas redes sociais. E é exatamente por isso que não percebemos o quanto tudo isto tem de viver no fio da navalha. Parabéns pelo texto!

  2. Luciana Magalhães disse:

    Marcelo, gostei bastante do seu texto, ele tem muito a ver com minha forma de pensar, exprime de forma bem interessante toda preocupação que tenho com este Narcisismo digital que vem tomando conta desta nova geração e o quanto eu me sinto distante dele. Infelizmente parece que minhas ideias estão um pouco em extinção, pois quando comento sobre isso, sempre escuto que um dia irei me adaptar ou então deixarei de “existir” para o mundo atual. Mas insisto na ideia de que a Tecnologia é de fundamental importância, e com certeza nos trás inúmeros benefícios, porém é preciso tomar muito cuidado com a forma com que a usamos, pois existe uma linha muito tênue entre os benefícios e a escravidão que ela pode nos causar. Parabéns pelas palavras!

    • Marcelo Salgado disse:

      Luciana, muito obrigado pelo comentário! Também creio que esta questão que eu trouxe aqui como “narcisismo digital” merece ser explorada — e por várias ciências e linhas de estudo (psicologia, sociologia, filosofia, etc.). Aproveito para compartilhar uma pesquisa que, creio, traz informações interessantes sobre este mesmo assunto: http://www.mobileetiquette.com/

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