Solidão Azul

Autor: Jean Lecointre.

A americana Yvette Vickers nasceu em 26 de agosto de 1928 e morreu em data não conhecida. O site IMDb (The Internet Movie Database) inventariou, dentre suas marcas registradas, as seguintes: lourice platinada, luminosos olhos azuis e figura voluptuosa. Nenhum dos incisos serviu de interjeição quando, aos 82 anos, a ex-playmate sofreu um colapso ignorado. Abril de 2011 e sua vizinha, a também atriz Susan Savage, foi alertada por indícios menos admiráveis. Teias de aranha e cartas amareladas foram notadas aos pequenos montes na caixa de correios de Vickers. Savage teve um bad feeling, escalou os portões, desceu, armou-se disso e daquilo. Decidiu invadir a casa ao entrever, pela janela partida, uma peruca abandonada. O interior todo era como se varrido por algo, muitas roupas e pilhas de lixo eletrônico formavam uma espécie de barricada. Savage, sob efeito do presságio, alcançou um quarto. O computador estava ligado, o aquecedor ainda cuspia um vento quente e o corpo de Vickers dormia escaveirado. Então, o Los Angeles Times maquinou a manchete: “Mummified Body of Former Playboy Playmate Yvette Vickers Found in Her Benedict Canyon Home”. Em duas semanas, computaram-se 16.057 posts no Facebook e 881 tweets. Vickers, cujo cume cinematográfico fora uma participação em Attack of the 50 Foot Woman, teria morrido cerca de um ano antes da investida premonitória de Savage.

O colunista Stephen Marche anotou no artigo para o The Atlantic: “sem filhos, sem filiação religiosa e nenhum círculo social imediato, ela começou — como uma mulher de idade — a procurar companhia em outro lugar”. Nos meses que antecederam sua morte, Vickers contatou alguns nós da sua imensa malha de conexão. Não um parente ou amigo próximo, mas alguns dos fãs que a descobriram em sites da Internet.

Estamos, definitivamente, conectados. Fomos transubstanciados nas informações que nos atravessam. Nossos friends são contados em centenas. Cabos de fibra óptica desconhecem sua extensão. Os fluxos de informação são controlados pela superfície digital de um dedo. Desconhecidos se importam com aquilo que você pensa e compartilham sua opinião sobre assuntos graves. Gravíssimos. (2011 e a pequena Blue Ivy, filha do casal Beyoncé e Jay Z, bate o recorde de tweets simultâneos sobre um mesmo assunto. Ela não foi sequestrada por uma gangue de pandas, mas nasceu).

Marche prossegue com seu registro numérico. Nos anos 40, o Facebook era sequer a ponta de uma grafite sobre uma folha de rascunho. E os E.U.A. abrigavam 2.500 psicólogos e menos de 500 terapeutas de família e casal. Em 2010, Zuckerberg reuniu mais de 800 milhões de usuários. E os E.U.A. somaram 77 mil psicólogos, 50 mil terapeutas de família e casal, 105 mil conselheiros de saúde mental, 220 mil conselheiros sobre abuso de substâncias e 30 mil life coaches. Curioso é que a maioria dos pacientes não apresenta diagnóstico psiquiátrico. O exército da salvação foi convocado para ajudar um e outro a lidar com problemas comuns. No Brasil, 25% dos pacientes que procuram os serviços do IPq-HCUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo) desejam cura para o vício em redes sociais. “E esse percentual deve aumentar”, informa Dora Góes em matéria concedida à revista Isto é.

As tecnologias tornaram simples o complexo, observou Sherry Turkle. O Ismael de Melville, já no século XIX, confessou: “o mar é meu substituto para a pistola e a bala”. Distraídos por uma timeline conta-gotas e abduzidos pela imensidão azul, confinamos os nossos arroubos triviais em consultórios. Toda hesitação da inteligência, perturbação de espírito, pequena frustração. Todo abalo é vassourado para debaixo de receituários médicos. É mais simples e custa a ninharia de um like. Menos desconcertante que o átimo nonsense, a desmesura, a “pistola e a bala”.

O alemão Günter Grass registrou na sua A ratazana: “É cada vez mais difícil presentear. Onde ainda sobra algum espaço? Ah, que desgraça, não saber mais o que desejar. Tudo foi realizado. O que falta, dizemos, é a carência, como se quiséssemos transformar em desejo nosso. E continuamos presenteando sem piedade. Ninguém mais sabe o que quando de quem lhe demonstra afeto. Sentia-me saciado e carente quando, indagado, pedi um rato como presente de Natal”. O que desejamos quando estabelecemos tantos nós? O que a tragédia solitária de Vickers sugere sobre nossa deriva nas redes sociais digitais? E, uma vez saciados, carentes, a que espécie de “rato” estaremos conectados?

Por Maria Ribeiro

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